DEUSAS DAS ENCRUZILHADAS?
(Serafão / Cellafano)
O povo romano foi em tudo, mesmo na religião, um povo de tendências pragmáticas. As práticas religiosas dos Romanos não visavam qualquer intuito idealista ou moral. Os ritos e as fórmulas sagradas, quer familiares, quer nacionais, tinham apenas o fim de tornar os deuses favoráveis, isto é, de evitar que estes lhes enviem castigos.
Os Romanos invocavam uma infinidade de numina, quer dizer, poderes ou vontades divinas. A origem destes numina perde-se na noite da Pré-História, pois os Romanos não os representaram durante muito tempo. Mas esses poderes (abstractos) foram-se concretizando na pessoa de alguns deuses que presidiam a certas actividades: Saturno (às sementeiras), Jano (à luz), Marte (à vegetação e mais tarde à guerra), Júpiter (ao céu e aos fenómenos atmosféricos), etc. A primeira e mais antiga tríade divina era constituída por Júpiter, Marte e Jano.
Os principais deuses nacionais, propriamente romanos, reflectem as características da raça latina, raça de camponeses e soldados.
Todo este breve
preâmbulo para dizer que sempre me impressionaram/intrigaram “As alminhas
da minha terra!”,
vejam bem! Situadas numa curva do lado direito de quem sobe para a igreja
paroquial de S. Julião de Serafão ou do lado esquerdo de quem desce para o rio,
chamado Torto, no lugar de Patelos, mesmo em frente à casa do senhor João
Carvalho (que Deus haja!), encontramos um nicho, tipo miniatura em formato
engenhoso de capela, protegido, vidrado e redado com imagens bastante realistas
de almas/corpos de crianças, jovens e adultos a arder no brilhante e multicolor
fogo, diziam eles do inferno e com o diabo de cornos esguios, tipo veado
selvagem com cio e ar azafamado com cara de poucos amigos e aparentemente
zangado e zangão com o forcado de espeto desenferrujado a atiçá-las hercúlea e
vivamente. Quem por lá passava e toda a população o fazia obrigatoriamente ou não,
inadvertida ou propositadamente olhava e quem destemidamente se aventurava a
aproximar-se do tal, via e lia melhor a seguinte legenda, escrita por alguém
frequentador de escolas de novas oportunidades profusamente divulgadas: “Dê uma esmolinha
para as almas!...”.
Recordo-me de alguém ter dito ou espalhado a notícia com pia e devota voz de que seriam as alminhas do purgatório a sofrer umas queimadelas antes de entrarem definitivamente no paraíso.
Bem. Declaro que aquelas luminosas labaredas e imagens sofredoras, mística e catolicamente traumatizantes, nunca na realidade se tinham visto ou ouvido falar em qualquer altura ou situação na aldeia. Creio até ao momento, que se saiba, nenhum cidadão daquela terra ter queimado outros seres vivos de igual forma, a não ser a tradição de matar e queimar a penugem dos porcos.
O passeante ou transeunte, criança descalça ou semi - descalça, jovem esfarrapado ou adulto toldado e sebento de terra e lama ressequida, aterrorizado com tantas e gigantescas labaredas faiscantes que ardiam teimosamente sem de consumir e tanto fogo nunca visto, que até de noite espantavam a escuridão de breu, diga-se sinceramente, que é um milagre nunca explicado pela ciência mais avançada. As pessoas generosas e pasmadas de compaixão, temor e certamente alguma devoção colocavam na respectiva ranhura tosca e na greta já gasta pelo tempo e bastante larga e usada por quase todos os da terra e dos baldios arredores, seu óvulo generoso, minúsculo e muito espremido, fazendo lembrar o tal da viuvinha alegre, algures cantando e dançando nos coros e altares do senhor.
Reparem que até alguns miúdos e dos mais atrevidos e menos princípios arriscavam meter o dedo na ranhura em forma de buraquinho, tentando apalpar os segredos do tesouro, mas que só um tinha o privilégio do acesso.
Esta visão tão dramática e efusivamente doentia criava no meu ser tantas artimanhas e fantasmas ao ponto de na descida para o rio e a caminho de Lordelo, que se chama, ainda hoje, “Torto”, não sei porquê, calçada minhota primitiva cheia de musgo e lesmas a necessitar de dieta e emparedada de bardos e bardos de videiras e árvores diversas, tortulhos, lagartos e sardões, libelinhas doidas e alguns pardelhos e pássaras menos exóticas e onde não era costume passar o Cristo Salvador. Inebriado por tão sensuais imagens, provavelmente de artista queimado vivo e reencarnado, só me apetecia pegar em cântaros, baldes e panelas de água roubadas ao Zé moleiro tão humedecido pela corrente e ambiente do rio e muito surdo de tantos ecos dos jumentos famintos e cansados dos arreios e taleigos para refrescar aquelas angélicas almas sofredoras.
Tudo isto não passavam de meras e pias intenções. Por mais rios e oceanos de água lançados hipoteticamente nas almas cadentes, intuía ingénua e puerilmente que as não aliviaria do fogo eterno, pois estavam irremediavelmente condenadas “in aeternum” pelas escrituras mais antigas e pelos sacrossantos doutores, dogmáticos e infalíveis iluminados. Toda a conjuntura social, política e religiosa assim sintonizava e as grandes e longas pregações, lausperenes, procissões, confissões e penitências… também alimentavam este frenesim e fundo pagano - religioso, muito domesticado pela ignorância e pela religiosidade popular pouco peneirada de cisco.
Mas, que triste imagem para tão alegre povo!
Hoje, não sei se existe. O progresso e a modernização das estradas e dos acessos às localidades provavelmente já fizera recuar tais mini - monumentos sacros que deviam ser protectores e acolhedores! Nem quero pensar, Deus me livre, que seriam um obstáculo ao trabalho árduo de homens e máquinas nem ironizar o santo nicho e sagrado banco.
Mas, para onde ia o tesouro escondido e guardado a sete chaves e um porteiro com cornos, mas do diabo que o leve? Para o S. Julião, padroeiro da terra, o padre ou irmã do padre ou sobrinhos e sobrinhas e família do padre, paróquia, comissão fabriqueira, sacristão, bispo, arquidiocese de braga, episcopado, santos e santas de deus?
Para onde?
Recentes notícias abonam que tais dádivas estão a ser objecto de averiguações desde há vários anos por parte de algumas entidades responsáveis civis e religiosas, por tesouros dispersos e mal administrados, mas como em tudo é preciso tempo e muita paciência para chegar a um veredicto. Os semanários, através dos seus comentadores mais assíduos e bem pagos, referem que mesmo que se encontre alguma luz ao fundo do túnel, terão a mesma sorte que outros, arquivarão os processos e serão ilibados, pois aqui não há culpa nem culpados…
E, esta, hein!?
Recordo-me de alguém ter dito ou espalhado a notícia com pia e devota voz de que seriam as alminhas do purgatório a sofrer umas queimadelas antes de entrarem definitivamente no paraíso.
Bem. Declaro que aquelas luminosas labaredas e imagens sofredoras, mística e catolicamente traumatizantes, nunca na realidade se tinham visto ou ouvido falar em qualquer altura ou situação na aldeia. Creio até ao momento, que se saiba, nenhum cidadão daquela terra ter queimado outros seres vivos de igual forma, a não ser a tradição de matar e queimar a penugem dos porcos.
O passeante ou transeunte, criança descalça ou semi - descalça, jovem esfarrapado ou adulto toldado e sebento de terra e lama ressequida, aterrorizado com tantas e gigantescas labaredas faiscantes que ardiam teimosamente sem de consumir e tanto fogo nunca visto, que até de noite espantavam a escuridão de breu, diga-se sinceramente, que é um milagre nunca explicado pela ciência mais avançada. As pessoas generosas e pasmadas de compaixão, temor e certamente alguma devoção colocavam na respectiva ranhura tosca e na greta já gasta pelo tempo e bastante larga e usada por quase todos os da terra e dos baldios arredores, seu óvulo generoso, minúsculo e muito espremido, fazendo lembrar o tal da viuvinha alegre, algures cantando e dançando nos coros e altares do senhor.
Reparem que até alguns miúdos e dos mais atrevidos e menos princípios arriscavam meter o dedo na ranhura em forma de buraquinho, tentando apalpar os segredos do tesouro, mas que só um tinha o privilégio do acesso.
Esta visão tão dramática e efusivamente doentia criava no meu ser tantas artimanhas e fantasmas ao ponto de na descida para o rio e a caminho de Lordelo, que se chama, ainda hoje, “Torto”, não sei porquê, calçada minhota primitiva cheia de musgo e lesmas a necessitar de dieta e emparedada de bardos e bardos de videiras e árvores diversas, tortulhos, lagartos e sardões, libelinhas doidas e alguns pardelhos e pássaras menos exóticas e onde não era costume passar o Cristo Salvador. Inebriado por tão sensuais imagens, provavelmente de artista queimado vivo e reencarnado, só me apetecia pegar em cântaros, baldes e panelas de água roubadas ao Zé moleiro tão humedecido pela corrente e ambiente do rio e muito surdo de tantos ecos dos jumentos famintos e cansados dos arreios e taleigos para refrescar aquelas angélicas almas sofredoras.
Tudo isto não passavam de meras e pias intenções. Por mais rios e oceanos de água lançados hipoteticamente nas almas cadentes, intuía ingénua e puerilmente que as não aliviaria do fogo eterno, pois estavam irremediavelmente condenadas “in aeternum” pelas escrituras mais antigas e pelos sacrossantos doutores, dogmáticos e infalíveis iluminados. Toda a conjuntura social, política e religiosa assim sintonizava e as grandes e longas pregações, lausperenes, procissões, confissões e penitências… também alimentavam este frenesim e fundo pagano - religioso, muito domesticado pela ignorância e pela religiosidade popular pouco peneirada de cisco.
Mas, que triste imagem para tão alegre povo!
Hoje, não sei se existe. O progresso e a modernização das estradas e dos acessos às localidades provavelmente já fizera recuar tais mini - monumentos sacros que deviam ser protectores e acolhedores! Nem quero pensar, Deus me livre, que seriam um obstáculo ao trabalho árduo de homens e máquinas nem ironizar o santo nicho e sagrado banco.
Mas, para onde ia o tesouro escondido e guardado a sete chaves e um porteiro com cornos, mas do diabo que o leve? Para o S. Julião, padroeiro da terra, o padre ou irmã do padre ou sobrinhos e sobrinhas e família do padre, paróquia, comissão fabriqueira, sacristão, bispo, arquidiocese de braga, episcopado, santos e santas de deus?
Para onde?
Recentes notícias abonam que tais dádivas estão a ser objecto de averiguações desde há vários anos por parte de algumas entidades responsáveis civis e religiosas, por tesouros dispersos e mal administrados, mas como em tudo é preciso tempo e muita paciência para chegar a um veredicto. Os semanários, através dos seus comentadores mais assíduos e bem pagos, referem que mesmo que se encontre alguma luz ao fundo do túnel, terão a mesma sorte que outros, arquivarão os processos e serão ilibados, pois aqui não há culpa nem culpados…
E, esta, hein!?
Joaquim Afonso

