Crónicas e Reflexões

sexta-feira, 13 de março de 2015





BACCANNALIA IN ILLO TEMPORE FUIT!





Bacchanalia, Roman holiday celebrating Bacchus (god of wine).
 

Introire mecum sed secum.
 
Em Roma, glorificando o deus Saturno, comemoravam-se as Saturnais. Esses festejos eram de tamanha importância que tribunais e escolas, diga-se, fechavam as portas durante o evento, escravos eram alforriados e as pessoas saíam às ruas para dançar. A euforia era geral.

Na abertura dessas festas ao deus Saturno, carros semelhantes a navios saíam das "avenidas", com homens e mulheres nus e seminus. Estes eram chamados os “carrum navalis”.
Muitos dizem que daí surgiu a expressão carne-vale.

A história do carnaval começa no princípio da nossa civilização, na origem dos rituais, nas celebrações da fertilidade, da colheita e nas primeiras lavouras às margens do Nilo, diga-se, há seis mil anos atrás.

Os primeiros agricultores exerciam a capacidade humana, que já nas cavernas se distinguia em volta da fogueira, dança, música e da celebração...

Aconteceram na intenção da deusa Ísis, no Egipto Antigo, as primeiras celebrações carnavalescas.

Com a evolução da sociedade grega evoluíram os rituais, acrescidos da bebida e do sexo, nos cultos ao deus Dionisius com as famosas celebrações dionisíacas.

Na Roma Antiga bacanais, saturnais e lupercais, festejavam os deuses Baco, Saturno e Pã.

A Sociedade Clássica acrescenta, ainda, uma função política de distinção social às celebrações, tolerando o espírito satírico, a crítica aos governos e governantes nos festejos.

A civilização judaico-cristã fundamentada na abstinência, na culpa, no pecado, no castigo, na penitência, (que o digam as antigas ordens mendicantes e modernamente mendicantes ordens religiosas e congregações – expulsas pelo visionário, pseudo - monárquico e pombalino marquês e também as múltiplas associações caritativas e caritas samaritanas, na redenção, renegam e condenam o carnaval, muito embora seus principais representantes fossem contrários à sua realização.

No séc. XV, o papa Paulo II contribuiu para a sua evolução imprimindo uma mudança estética ao introduzir o baile de máscaras, quando permitiu que em frente do seu luxuoso palácio, na Via Látea, se realizasse o carnaval romano.

Como a Igreja proibira as manifestações sexuais no festejo, novas manifestações adquiriram forma: corridas, desfiles, fantasias, deboche e morbidez.

Estava reduzido o carnaval à celebração ordeira, de carácter artístico, com bailes e desfiles alegóricos.

Depois do Egipto, o primeiro, do segundo na Grécia e Roma Antigas e do terceiro, no Renascimento Europeu, particularmente em Veneza, o Carnaval encontra no Rio de Janeiro o seu quarto centro de excelência resgatando o espírito de Baco e Dionisus em tese de Hiram Araújo, estudioso do carnaval e do samba, ao contar uma história que completa seu sexto milénio e que acompanha a própria história da humanidade, a história do carnaval, considerando os seus centros de excelência, divididos em quatro períodos:

o Originário, (4.000 anos a.C. ao século VII a.C.), o Pagão, (do século VII a.C. ao século VI d.C.), o Cristão ( do século VI d.C. ao século XVIII d.C.) e o Contemporâneo (do século XVIII d.C. à modernidade).

Mas, vejamos uma simples cronologia minimamente ortodoxa e fidedigna, para ser rigoroso e menos fastidioso.
a.C

605 a 527. Oficialização das festas a Dioníso (culto a Dioníso) durante o reinado de Pisistrato em Atenas.
186 As Bacanais em Roma geram desordens e escândalos, factos que levam o Senado Romano a reprimi-las.
d. C

325 Concílio de Nicéia, discussão sobre as festas populares.
476 Queda de Roma.
590 Gregório I, O GRANDE regulamentou as datas do Carnaval e criou a expressão - "dominica ad carne levandas" - que foi sucessivamente sendo abreviada até à palavra Carnaval.
1464 O Papa Paulo II incentivou o Carnaval de Veneza.
1723 Introduzido pelos portugueses, das ilhas da Madeira, Açores e de Cabo Verde, que chegaram ao Brasil pelo litoral a partir de Porto Alegre ao Espírito Santo, o Entrudo brasileiro.
1880 Surge o "morcego" no Carnaval.
1889 Surge a Sociedade Carnavalesca Triunfo das Concubinas.

Mas, o Carnaval de Veneza e o Carnaval de Viareggio são considerados entre os maiores do mundo, pois sua fama, transcende as fronteiras nacionais e é capaz de atrair turistas de Itália e do exterior.

O Carnaval de Veneza é conhecido pela beleza das fantasias, a pompa das festividades e é composto de vários dias de manifestações: exposições de arte, desfiles de moda, apresentações teatrais, etc.

O Carnaval de Viareggio é caracterizado por carros alegóricos que desfilam nos Domingos entre Janeiro e Fevereiro e possuem enormes esculturas de papel - machê, que retractam caricaturas de homens famosos no campo da política, cultura e entretenimento, cujos traços característicos, especialmente os recursos são sublinhados com sátira e ironia.

Os carros desfilam ao longo do passeio em Viareggio, uma avenida que corre ao longo de dois quilómetros entre a praia e as construções em estilo “Art Nouveau” com vista para o mar Tirreno.

Embora não haja certeza absoluta quanto à origem da palavra “carnaval”, sabe-se que surgiu entre os séculos XI e XII e deriva do latim carnelevamen (tirar a carne), depois modificada para carne vale (adeus carne).

Está ligada à tradição cristã e absorvida pela criada e sempre polémica Igreja Católica, apostólica e romana, no dizer do grande teólogo Hans Kung, professor de renome mundial, alemão dos anos 60, proibido de leccionar nas faculdades alemãs e posteriormente excomungado pelo Papa, não este, mas os antecessores, descansando eternamente na catacumba a eles destinada para perpétua memória e adoração, de não comer carne no período que precede a Quaresma.

Nesse período todos os cristãos deveriam abster-se de carne por quarenta dias, da Quarta-Feira de Cinzas até às vésperas da Páscoa, jejuar e fazer penitências.

Portanto, o carnaval significava a possibilidade de fugir desses rigores, festejando em liberdade.

Mas, o nosso Carnaval português oriundo das reminiscências do passado é mais divertido, dizem os jornais diários, revistas cor-de-rosa, canais de televisão pública e privada e vejamos de modo moderado e pós-moderno – mais light e não gigante, são notícias recentes da comunicação social hodierna e matutina:

-Portugal tem dois milhões de idosos (29%) e desses 400 mil vivem completamente sozinhos, longe do pulsar quotidiano onde até recentemente foram encontrados vários mortos em casa abandonados e afirmam os interlocutores indirectos que foram esquecidos há vários dias. Dizem que este é um país que não está a saber cuidar dos seus velhos! (JN-4-2-12, dados divulgados pelo INE e 3-2-12)!

-Graça Moura-director do CCB trava Novo Acordo Ortográfico!

-Professor manda alunos despirem-se e beijar na boca colegas do mesmo sexo e fala em exercício de criatividade!

-Rio (não sei qual ou se chora) proíbe urinar e cuspir na (sua) rua!

-O senhor X tem uma reforma de 27 mil euros e diz que não deve favor algum a ninguém!

-Patriarca quer mais exorcismos! Pudera...

-Padre, de Viana do Castelo, arrisca exclusão do sacerdócio, cometendo o 3º dos sete pecados mortais – luxúria – dizem os inovadores e originais clérigos católicos por chantagem e extorsão sexual! O seu Bispo (talvez devido ao voto de obediência), não faz comentários!

-O governo e primeiro-ministro não dão tolerância de ponto no Carnaval à função pública. Isto até é muito bacano, mas acompanhado de bacante e bacamarte, diga-se!

Enfim... enfim...

Faça o favor de ler este heróico trecho da nossa epopeia:

“Mas um velho, de aspecto venerando,

que ficava nas praias, entre a gente,

postos em nós os olhos, meneando

três vezes a cabeça, descontente,

a voz pesada um pouco alevantando,

que nós no mar ouvimos claramente,

Cum saber só de experiências feito,

tais palavras tirou do experto peito:


Ó glória de mandar, ó vã cobiça

desta vaidade a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

c'ua aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

que crueldades nele experimentas!


Dura inquietação da alma e da vida

fonte de desamparos e adultérios,

sagaz consumidora conhecida

de fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

sendo digna de infames vitupérios;

chamam-te Fama e Glória Soberana,

nomes com quem se o povo néscio engana!"

(Luís de Camões, canto IV, estâncias 94,95,96)

Diga-se de passagem que até estou de certo modo de acordo com o jovem líder lusitano, mas muito inferior nas armas a Viriato, pois o “povão” do nosso Portugal proporcionou a todos os políticos da nossa causa pública “Res Publica” e seus assessórios e arredores filiados ou não e tem copiosamente proporcionado aos seus mais ousados, grandes e libidinosos bacanais!

Mas, quem te manda a ti seguir as pisadas do Sancho Pança, esquecendo-te tão facilmente do seu companheiro D. Quixote!

Por isso, não teres tolerância de ponto na hora de ponta, seu funcionário ou outro agente qualquer, isto é indefinido, não é milagre nem será o “apocalipse now”!

Carnavais deram-te muitos e com alguma folia, (como o bailinho da Madeira…), agora foliar é contigo e com a tua…!

Nestes tempos de imposta e esconjurada crise, jejua, faz abstinência, resigna-te, pois, no fim e após este vale de lágrimas, terás a vida eterna… as amêndoas e os ovos dourados prometidos na futura Páscoa…

Delira, inebria-te, excita-te até à loucura a observar as marchas populares aqui e ali neste jardim à beira mar plantado, a paisagem e o caudal de água debaixo da ponte sempre e eternamente renovada...

Mas, “tu quoque fillii mi bruti” não vás em quimeras nem te apoies em miragens...pois carnavais e bacanais há muitos neste Portugal à deriva e são quando e onde menos esperas...!

Querem mais? Vistam-se de animados foliões e banhem-se até aos...joelhos!

                                                                                              Joaquim Afonso