Crónicas e Reflexões

terça-feira, 29 de abril de 2014

IDIOTICES DUM HAGIÓGRAFO?





MICRO - E P Í S T U LA
(idiotices dum hagiógrafo?)



Divinamente inspirado pelas estrelas e pelo irmão sol, o minor apóstulu e apócrifo (inter pares) vem humildemente, neste tempo e neste período conturbado, dirigir-se aus seus fratelli dispersus ou em diáspura por terras lusitanas e pur grassas e óbera de alguns carolas destemidus. Talvez em vernáculo, no dialectu de Viriatus se diga, uns apóstolo-zitos aventureiros e dissidentes próximus-remotus dumas castas indefinidas e extintas de celtas, suevus, visigodus ou ibéru-esmaelitas fundidos in nillo tempore ou andantes errantes. Quais camelos sem deserto, sem oásis e sem miragens, espécies estranhas de antanho, serracenus ou raianus confundidos nus puntos culaterais e cardiais de terras lusas, presentes e além fronteiras, ou talvez filhos bastardos e pseudo-humanizados da luba rumana, intemperadus pela penúria das oito tetas tesas e inchadas e pelo destinu amargu e doce, que sempre conduz à plena felicidade dus sentidus, dus que aspiram e inspiram o éter inebriante dus deuses, du olimpus estelar e multicolor. Tão ausentes de nós au longu deste térreo e míseru itineráriu e tão próximus dus que nus estão distantes, imãos desabindus e desejosos do óciu e da miraculosa terra prometida.

Sei que estais ávidus de um novo capítulo versus reencontro, um novo acampamento à maneira do infortunado e imortal Camões, numa ilha paradisíaca ou no meio duma sarsa ardente, há muito o solicitais, mas sabei também u quão é difícil reunir carneiros tresmalhados e matizados pelo  rodar do tempo.

Onde param os carneiros dispersos do redil? Será que alguma sereia ou ovelhinha mais vaidosa e ardilosa os seduziu? Una voz, em sonhos me terá dito que foram encontrados e identificados algures vestígios de alguns, depois de inúmeras diligências du apostulu maior. Consta-se que brevemente serão sujeitos a julgamento sumário.

Reuni-vus, hermanos, algures em terras du benditu, não importa a distância, utilizai as máquinas e a imaginação, rugai a ele, inspirai-vus e demandai até às cavernas Buçaquianas ou Lusas. Talvez em mudernus apusentus rupestres, na Mea-lhada, vulgo Leitonada e saboreai o coxo. Dádiva e criação humano-divina e tão adoradu pelus fãs em peregrinações alucinantes, imitando os anciãos conquistadores, acolitados pelo néctar da parra (vulgo Baco), que a Noé deu tanto inspiração para ser o nosso primordial timoneiro e primeiro exemplo. Responsável da barcassa em águas diluvianas, mas que teve a primazia, a inteligência e o bom senso de salvar o dito bixaroco para a posteridade e outros de menor importância mundial para que nós. 



 
Hoje e também amanhã o saboreássemos, depois de passar u nirvana fumosu e ter sido sujeitos a todos os exames e interrogatórios, sem defesa de Fafe, adornadu de condimentos mil e medalhadu, qual general na pré-reserva, com o selu da cualidade e da distinção.

É um privilégio singular, irmãos dispersus e agora pré-reunidos pelas intenções do nosso maior, antes do toque das trindades, em tão sacrossantu santuáriu, motivadus pelu deseju oculto e oposto ao cérebru e fortalecedor das vossas e nossas entranhas, umas mais dilatadas pelo tempo e outras acusando as carências e penúria, de tão longo dilúviu e dos novos tempos, exortar-vos a fortalecer-vos na privação e na esperança.

Mas a parra é u sinal de que nos salvamus… que u testemunhe a nossa mãe Eva. Só assim pudemus ser fortalecidus na comunidade e na sulidariedade, digo-vus irmãos: João das Ccaldinhas, Colaço dos Blogues e das sinuosas calçadas lisboetas, Agostinho do Pau de Fafe e Agostinho de Abiúl e Coimbra, Carlos Rito (não o de Bizâncio, mas do Souto), Firmino de Pombal, Zé Ribeiro (chá-preto) e Lino (gaulês) e outros cuja memória, talvez devido à minha senectude e provecta idade não menciono.

Talvez estejam em palhinhas deitados ou longe do objectivo e dus seus pares ou pregando em terras pagãs e gentias. Que a longa jornada não altere o vossu propósito e a vossa gula, saboreai os bens de deus e da natureza, pecai muito, pois a misericórdia do altíssimo é infinita e o seu manto é clementíssimo e proteger-vos-á no seu aconchego refugium peccatorum.

Bradai às estrelinhas do céu, às avezinhas do firmamento, aos peixinhos do oceano quão bom é estarmos e permanecermos todos reunidos, nu cenáculo virtual e quão bom seria permanecermos in aeternum neste olimpu, em tendas que albergassem todos os ausentes famintos de felicidade e desejosos de tão saborosus manjares. Prenúncio do céu a que todos aspiramus um dia, depois de passarmos este vale de lágrimas à porta inferi, rumu au infinitu.

Que toda a orbe, todo o universo, toda a criação rejubile de encanto com a vossa presença neste santuarium, penumbra divina.

Não vos massu mais, caríssimus irmãos, nesta hora e nestes tempos difíceis que atravessamos. Exorto-vos a vacinarem-se atempadamente contra todos os vírus da crise, os seus autores e mentores e rogo-vos ainda, não acreditem em filosofias, quimeras e vendavais!

Apelo à vossa paciência heróica, matai a resignação, controlai a fúria, mas se vos sentirdes impacientes, revoltai-vos, não contra este vosso irmão e esta comunidade, mas contra o sistema.

Permanecei firmes e hirtus, guiai com atenção, endireitai as veredas, aplanai caminhos tortuosos, combatei o inimigo, vigiai dia e noite, dai uma face e uma mão, amai a irmã natureza e os seus frutos, comei o que vos oferecerem – o que nacional é bom!!! – não regateeis por um cêntimo ou euro, sede fortes, bebei até à exaustão, bufai ao balão, mas não pactueis com os escravos, pois estes não entram no reino da falicidade e assim recebereis as palmas e louros reservadas para vós, in saecula saeculorum.

Enfim…

Gostava de vos confortar ainda mais, mas sei que us vossus afazeres requerem a vossa solicitude. Não vos apoquentu mais, nesta hora de expectativa e nestes dias de graça... As vossas comunidades esperam-vus ansiosamente e exigem a vossa presença.

Prezado irmão, que o cheiru diluído das velas e os aromas com que adornaste o teu santuarium se espalhem pelas tuas narinas e pelu firmamentum e te toque a sensibilidade e o alto imperativo da marcha.
Do vosso irmão apóstulu minor, algures em terras medievais, devidamente inspirado, saudações fraternas!

Oh, ai, ó lindo!


Joaquim Afonso

P.S Escrito já com algumas adaptações ao "novo acordo ortográfico"






sábado, 26 de abril de 2014

A TRAVE D´OURO e A TRAVE DE PESTE


A TRAVE D´OURO e A TRAVE DE PESTE…


(reminiscências ancestrais de lendas celtiberas/mouriscas ou advento apocalíptico de milagres de santa em capela algures…)



A nossa simpática e adorada tia Emília Afonso (que me desculpem as outras minhas queridas tias, que já cantam as maravilhas da criação, algures...) e para mim, do que mais simples e genuíno existe no povo anónimo e inteligente da terra, às vezes bastante rabugenta e a tremelicar por quase todos os cantos da casa, farta de nos ver a brincar e ouvir as gritarias e berros e de nos aturar de quanto endiabrados e irrequietos estávamos, ao fim de um longo e aventureiro dia, pois a paciência e a bondade esgotavam-se lentamente. Digo-o à distância de alguns anos, pois já não nos vê, não nos ouve ou fala como.

Nós, a não a vermos e ouvi-la, sabemos que muitas horas da sua existência e apesar de ainda hoje gostássemos muito de a ver e ouvir atentamente as suas enigmáticas e mirabolantes histórias, era chamada minha e nossa tia Emília Afonso, irmã do meu querido pai Domingos Afonso (que Deus haja, espero credulamente que sim!) e que sempre viveu na sua e nossa humilde e bastante comprida casa, herdada pelo meu pai do seu pai, bem como, seus quintais e adereços adjacentes e dispersos, sobejamente paga e bem paga pelos meus progenitores.

Soube mais tarde, aos 7 herdeiros do meu avô paterno, José Afonso de nome, casado com Maria de Jesus Cardoso, do lugar de Soutelo, "in illo tempore” e da sua jovem mulher e minha futura mãe, da nossa família de antanho, conhecida pelo nome de Elvira Gonçalves, do lugar de S. Miguel do Monte ( diga-se, de San Michel del Monte, pois é mais bonito...).  
 
Freguesia lá do alto e relativamente próxima, mas para os vizinhos e amigos, a senhora Virinha do Afonso, (que Deus haja, espero credulamente que sim!) conhecida no povoado pelo insistente e contínuo árduo trabalho e generosidade. Para além de cuidar da sua amada e tenra prole, dizia eu e diz o povo, sem pretensões, claro está, tinha herdado algum património dos generosos progenitores à semelhança do seu irmão, no lugar de Vilarelho, em Serafão, contava-nos na infância e ainda na juventude imensas e delirantes histórias que nos deixavam boquiabertos e estupefactos.

A minha mãe e o meu pai ocupavam muitas horas do seu dia e até altas horas da noite a trabalhar na lavoura, agricultura,  juntamente com outros trabalhadores e jornaleiros, como se dizia na altura e o tempo infelizmente escasseava para nos mimar e contar histórias.

Por vezes e foram imensas vezes, ao escurecer do dia e já alta noite com as diversas e variadas candeias de azeite acesas e com as torcidas a trepidar e muito carbonizados, os pavios a acusar iminente apagão para futura escuridão de breu e os lampiões a fumegar com o precário e incandescente petróleo, antes da ceia. A casa quase sempre cheia de gente que trabalhou durante o dia nas suas minifundiárias e reduzidas propriedades e estafados da labuta, conversavam um pouquinho connosco uns sentados e reunidos à lareira e outros de pé, mas o cansaço e o sono acabariam por deixar as histórias a meio e para o dia seguinte.

Muito sonolentos e cansados das traquinices diárias e diga-se de algum trabalho de ajuda disperso e dispersos, sobretudo com os diversos animais do terráqueo paraíso, não resistíamos a tamanha preguiça e exaustão e acabávamos por adormecer aqui e ali, no escano, cadeiras toscas e bancos da casa, junto e bem de frente à rubra e fumegante lareira.

Até os delgados e esqueléticos chouriços muito noctívagos e aberrantes enchidos e outros por encher futuramente, guardiães da casa e do templo não pagão, fumegantes alguns e ligeiramente espremidos outros, à nascença, mas categoricamente nocturnos e disponíveis pelas suaves e engenhosas mãos calejadas e unhas denegridas e maltratadas, mas muito saborosos apesar disso, pelo dedicado trabalho, muitas e muitas chouriças penduradas e belas, artisticamente suspensas, quais paraquedistas perdidos algures e em apuros vertiginosos e apetitosos.

Suspensos em semi-enferrujados pregos na regular e irregular tábua de madeira de castanheiro velho, a tender para o preto suspensa das alturas fumegantes e fumaradas, barrigudos salpicões atrevidos e para já não falar de alguns obesos e tradicionais presuntos na abonada e extensa chaminé abarrotada até aos limites da sua capacidade.

E, era, assim, assim, claro ou escuro!

Acontecia que minha mãe ao ver os seus tenros e muito queridos rebentos dormindo profundamente ou com pena ou cansada, de tanto trabalhar na quinta, porque as suas frágeis e já doridas pernas com algumas e visíveis mazelas ou varizes salientes, não aguentavam o peso do seu sôfrego e efémero corpo.

Embrulhava-nos em mantas de lã de ovelha feitas na casa ou mandadas fazer de encomenda à conhecida tecedeira do lugar. Creio que de nome Albertina Mota e depois de muito carpeadas e urdidas à maneira do tempo, mas muito caseiras e genuínas, depois de devidamente aquecidas na lareira por entre potes e outras peças de roupa tecidas pela senhora Maria tecedeira, mulher do senhor David, a quem nós, diga-se, eu e meus irmãos mais atrevidos e outros meninos do lugar, chamávamos simpática e ironicamente o “Espreita Aviões”.

Talvez pela sua postura de andar sempre com a cabeça e olhos virados para o céu e para as nuvens invisíveis, quem sabe, à procura de milagres e prodígios insólitos, diga-se, agora, mas mulher que sempre conheci vestida de muita roupa preta e demasiado comprida para a minha altura e que vivia no sítio chamado Carvalho da Fonte, a umas dezenas de metros acima da nossa casa e a meio do lugarejo… e penso que carinhosamente nos envolvia no seu regaço, um a um, colocando-nos depois nas várias camas existentes na casa.

Depois, penso que iria descansar…sonhar...descansar...

E, lá, com mais algum conforto, dormíamos pia e santamente a noite até à manhã do dia seguinte…

E, era só dormir...sonhar…sonhar...sonhar...

Mas, a minha tia contava com grande convicção e pedagogia surpreendente e inédita para mim e muito mais humilde e magistral, que a deste simples e seu grande admirador terráqueo.

Frutífera ou infrutiferamente “in gaudio”, que havia e ainda há, na Costa de Paredes, a caminho dos montes de Vilarelho e do monte do Outeiro e nos montes distantes dos Lameiros, próximo da capela pseudo-imaginária por líricos imaturos e intelectuais prematuros da recente universidade da brácara augusta próxima, diga-se, da famosa UM, estrebaria mal ou bem cheirosa, ancestral ou remota de antanho, mas invisível aos olhos muito míopes e… sobretudo dos arqueólogos e investigadores de arcas perdidas e minas insipientes e inexistentes, mas a denominada Santa Cristina d´Agrela, o histórico, solitário e diluviano penedo qual esfinge sem deserto e sem camelos, observando estática e passivamente as belas paisagens das redondezas bem como o caminho muito tortuoso, pedregoso e íngreme a subir para o lugar de Casal de Estime, uma ancestral e denominada Trave d'ouro e outra denominada, atrevida ou pestilenta Trave de peste que existe e sempre existirá.

Os arqueólogos e investigadores da confortável e moderna cidade bracarense mimeticamente cansados pela observação da paisagem ou desdenhando da súbita e louca subida e descida fácil e facilitada por entre pedras rudes da calçada e os caminhos tortuosos do monte, facilmente desistiram não se assemelhando em audácia e tenacidade para não dizer em esforço intelectual e heróico, aos seus antepassados celtas e celtiberos paridos e posteriormente misturados de afonsinos celto - romanizados!

Contentaram-se, na altura, em fazer o levantamento triunfal de um reles e granítico penico onde toda a população e pessoas das redondezas mijavam e cagavam abundantemente, perdão, depois de comerem jabardamente as belas e duras castanhas do souto e em forma rectangular à maneira egípcia, depois de assar e assar muitas e muitas castanhas ou castanholas, ovelhas, cabras e cabritos... ou outras coisas… em abono da verdade e tida como idónea e histórica em terras mais planas e de índole mais acessível.

Afinal, o que é o tesouro, o famoso achado arqueológico e onde se encontra guardado a sete chaves...

Valha-nos Deus e diz o povo que foi por amor à cultura e ciência!

Dizia-nos, então, minha tia, peremptória e abissalmente que para chegar à Trave d'ouro era preciso explorar os montes e vales com muito esforço e engenho  e entrar nas profundezas da misteriosa Trave de peste. Nós, muito curiosos e de olhos em bico, fazíamos perguntas creio que muito estúpidas e ingénuas.

E, prosseguia, dizendo com os olhos muito bem abertos e fixos para nós que fulminavam os nossos, a tez da sua pele muito alba, mas creio muito feliz pela prole do seu prezado irmão, rodeada e acarinhada por gatos, cães e alguns pitos atrevidos e curiosos e havia um preto e comprido muito especial e já muito ancião e carinhoso que lhe fazia ao colo muitas festinhas na cara e nos cabelos esbranquiçados e muito compridos, uns grandes e pretos e outros matizados.
Aquase sempre entre o corredor da varanda e do seu quarto próximo, os seus olhos de deslumbrantes brilhos o diziam a sorrir, face muito risonha, cabelos ainda mais belos para a sua idade, que serpenteavam o seu vetusto busto, pretos de nascença e alguns já matizados de branco como sempre a conheci e com a boca e lábios carnudos e desmedidamente abertos ao ponto de se ver a falha já dos dentes laterais e posteriores, pois eram as consequências nefastas da sua provecta e senil idade e os cuidados de saúde inexistentes lhe não proporcionavam chegar à trave de peste e que era preciso ter muito cuidado, pois o fedor seria tanto que contaminaria tudo e todos em redor e ainda mais, dizimaria as pessoas, plantas e animais.

Afinal, a minha e nossa tia, mulher de inexplicável e sapiente imaginação e de grandes aventuras como todos os da sua família mais próxima, preferiu, se calhar, comer um chouriço da sua e nossa quente lareira que comprar um porco estranho e bem nutrido!

Afinal, porque precisaria de comprar um porco por causa de um chouriço?

Nós, bastante surpreendidos e assustados começávamos a ficar um pouco aterrados e com os cabelos em pé!

Afinal, nesta idade e neste tempo, como ainda te vou compreendendo à distância destes anos, pois a Trave d'ouro e a Trave de peste por lá existe e no mesmo local à espera de aventureiros destemidos, sonhadores e audazes!

Mas, a tua escrita e assinatura, tia Emília, era muito legível e maravilhosa, desenhava o teu encanto e o teu sonho e ouvir a tua leitura insistente me admirava bem como as tuas encantadoras histórias…

Que saudades!

Afinal, quem te ensinou o que eu nunca consegui aprender?
Mas, quem se atreverá a encontrá-las?
E, tu, relíquia ancestral do meu e nosso povo onde te refugiaste?

Enfim, muito obrigado, tia Emília Afonso!
Joaquim Afonso
 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

“SEMPER” - 25 DE ABRIL!




 
“SEMPER” - 25 DE ABRIL!


 


No meu cravo vermelho de Abril renascem pétalas matizadas, realidade ou utopia, seja o que for!

Vou falar um pouco do meu 25 de Abril de 74, onde estava, o que fazia, amigos, sonhos, projectos e realidades. Sei que me encontrava em aulas no Porto durante a manhã e de regresso a casa, em Gondomar, percorrendo uma grande e conhecida rua do Porto, que passa em frente ao Palácio de Cristal, quartel Sica 1 e Hospital de Santo António, sem rotundas, algo estranho aconteceu algures em Portugal. Era a notícia que ecoava, já passava do meio- dia…
 
Algo em mim estremeceu de espanto, curiosidade, surpresa e emoção.

Será que… o que se passou… onde… quem… o quê… como… porquê… enfim, uma avalanche de interrogações que se perpetuaram dia fora até altas horas da noite. Os meus sentidos ávidos de novidades e notícias não se cansaram de esperar para ver as últimas na televisão e ouvir na rádio todas as informações, comunicados oficiais e oficiosos, tendo sempre como cenário e fundo a música clássica. 

Creio que foi a primeira vez que se deu uma verdadeira lição de pedagogia musical erudita, pois até então era o malhão…malhão…folclore…corridinho…canções…pimva-pimva…fados e guitarradas…futebol e tourada…Amália…Eusébio…festas…arraiais…procissões… e …romarias…santos…santas…milagres… enfim, devoções respeitáveis aqui e ali que contribuíam para o status quo, conformismo, comodismo, tradicionalismo, ritualismo cíclico, resignação, predestinação…mas para quê tantos ismos?

Se é verdade, era uma surpresa bem-vinda!

A agitação, movimento e falatório aumentam nas cidades, vilas e aldeias de dia e de noite. Os cafés, núcleos associativos e recreativos enchem-se amiúde de mais clientes e curiosos. A vida laboral sofre intermitências, gera-se alguma confusão e apreensão entre grupos e pessoas. Nos quarteis reina a tensão e nos serviços públicos há um certo desnorte.

A vida e rotina quotidiana dos cidadãos alteram-se ligeiramente e o bulício citadino e urbano aumentam.

A euforia colectiva gera-se progressivamente à medida que os acontecimentos se vão avolumando.

Afinal, o povo estava muito desejoso deste tão heróico momento, pois a noite de trevas, tinha sido tão longa e misteriosa que quase toldava a visão e ensurdecia os ouvidos, para já não falar dos neurónios! 

Um povo a libertar-se à semelhança do povo bíblico a caminho do êxodo Babilónico e da Jerusalém prometida!

A liberdade não se compra, conquista-se!

Alguns escritores e poetas assim o demonstraram e demonstram. Vejam-se os muitos e variados poemas e músicas de intervenção de diversos autores.

Claro está que o passado tradicional estava enraizado na cultura e mentalidade da maioria dos portugueses. A censura na rádio, televisão e imprensa, ausência de liberdade de comunicação e informação, monolitismo político e religioso, a pide - dgs, os bufos, a guerra colonial, as perseguições políticas e laborais, as prisões, a emancipação e descolonização, a emigração clandestina, o analfabetismo literal e funcional, elitismo estudantil, monopólios e latifúndios de todo o género, ausência de direitos, liberdades e garantias, fome e miséria, a tríade Deus, Pátria e Família, estratificação social, uma educação baseada no medo, temor e devoção como a moral mais conservadora da Igreja Católica, Apostólica, Romana e Tridentina, enfim, uma plêiade de ignomínias…

E, depois de Abril?

A gaivota bem cantou, mas não fez estremecer o cajado do pastor, pois continua muito verde, estático, com muito pó e rugas, para não dizer, enferrujado!

Será que é necessário desenterrar a espada de dois gumes de D. Afonso Henriques, o conquistador?

“Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado

De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor.”

In Do folclore Alentejano

“O sonho é ver as formas invisíveis “
“Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A arvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.”

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lagrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a lama não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

“Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”



“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Valete, Fratres”

In Fernando Pessoa


“Uma mosca sem valor
Poisa, c´o a mesma alegria,
Na careca de um doutor
Comoem qualquer porcaria.


Num arranco de loucura,
Filha desta confusão,
Vai todo o mundo à procura
Daquilo que tem à mão.


Ser criada de um ricaço,
Desses que temos a rodos,
É dar o primeiro passo
P'ra ser criada de todos.

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os Homens são no fundo.

Mentiu com habilidade,
Fez quantas mentiras quis;
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.

Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério,
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério

Gosto do preto no branco,
Como costumam dizer:
Antes perder por ser franco
Que ganhar por não ser.

Num arranco de loucura,
Filha desta confusão,
Vai todo o mundo à procura
Daquilo que tem à mão.

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?

Deixam-me sempre confuso
As tuas palavras boas,
Por não te ver fazer uso
Dessa moral que apregoas.”

In António Aleixo


“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança. “


In António Gedeão, 'Movimento Perpétuo'



25 de Abril… sempre!


Oh, ai, ó linda!


Joaquim Afonso