Crónicas e Reflexões

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O PAU DE SANTO AMARO É MAIS DIREITO QUE O RIO TORTO




O PAU DE SANTO AMARO É MAIS DIREITO QUE O RIO TORTO

(in AROSA-Guimarães)


O Pau de Santo Amaro de Arosa é muito grande! Tão grande, talvez, como os seus milagres! E, para o levantar até ao ponto crucial e milagreiro, ai, ai, Jesus, que tempo e sacrifício, determinação e paciência, audácia e tenacidade de muita e anónima gente da freguesia, mulheres, homens, crianças a ferro e fogo e talvez a ajuda solidária da vizinhança!

Ele em baixo muito esticado ao comprido no pavimento do recinto feito em paralelo granítico e muito dorminhoco e apático, forçosamente hibernado e temporariamente estático, solitário de dia e de noite da extenuada viagem de algures montes verdejantes e tojados, diga-se das nojentas e picantes silvas e matos bravios, odorífico quanto baste na pele que o reveste e protege, mas curtamente ramificado na ponta extrema do cimo detestado em altura e bem arejado, não sobe nem desce sem a ajuda de alguém animado, carinhoso e engenhoso.

Alguns rangiam e suspiravam muito contentes no início da cerimónia marcada do levantamento, outros mostravam-se apreensivos e cépticos com tal proeza e aventura, mas estranhamente felizes e elas estáticas e sibilinamente muito surpreendidas deixavam transparecer no seu olhar maroto alguma satisfação e prazer.


Os poucos jovens alegres e animados, homens adultos e valentes da aldeia e talvez de outras aldeias fronteiriças, alguns forasteiros de passagem a pé na estrada, motociclo ou de carro, com ar de quase mirones ou paparrazes peidavam-se silenciosamente e de soslaio vaidoso e traquina, não vá o diabo tecê-las, ao ver a dimensão, altitude e caracóis ramificados do alto e grande mastro.

Mais ainda, cagavam-se e mijavam-se, (perdão…que cheiro nauseabundo…), sonoramente para quase toda a gente em alto e bom som, ao toque comprido e bastante estridente do presidente da Junta de freguesia muito engravatado e de gabardine comprida para o acto cerimonial, de micro na mão direita pronunciando palavras de ordem e toques de marcha comprimidos uns e extensamente curtos outros para os que se encontravam silenciosamente marimbando para os curiosos e mirones imprevistos, pois a cerimónia tinha de ter o seu ritmo e brilhantismo, defronte à capela e ao santo.

Dizia que até em alto e bom som, pronunciou palavras duras para um ou vários motociclistas no momento mal estacionados, no recinto privado e sacro da cerimónia e outras irreverências perturbadoras do acto. Em murmúrio contido e por vezes forte, mas nada bonito, diziam alguns espectadores à moda de piropos para o público presente frente à estrada, que liga Fafe a Braga, Guimarães e Póvoa de Lanhoso e ao som de música de orquestra invisível e altifalantes muito atrevidos e desafinados lá do alto de um poste de electricidade, lá ia o povo ora concentrado ora mais distraído, levantando com cordas laterais bastante compridas e para todos os magotes, o madeiro muito esguio e imóvel do pavimento.

Vê-los todos unidos e agarrados ao enorme e fininho vergueiro com as mãos e dedos calejados uns, fortes braços outros às compridas e resistentes cordas foi extraordinário!

Vê-los colocar as tábuas cruzadas para suporte lento e progressivo da ascensão  o extenso e alto pau foi extraordinário!
Vê-los erguer e colocar finalmente o pau no respectivo buraco engenhosa e artisticamente preparado para o receber foi e é extraordinário!


Tal cena a que tive o privilégio de assistir pela primeira vez a vida, no princípio de Janeiro de 2013, fez-me por momentos, lembrar a epopeia não do pau, mas a epopeia do transporte da pedra de milhares de toneladas de Pero Pinheiro para a construção do Convento de Mafra, relatada genialmente in Memorial do Convento por José Saramago.

D. João, quinto do nome da tabela real e a rainha D. Maria Ana Josefa muito obesos e sebentos nos corpos e nas sobrecarregadas e monárquicas roupas interiores cheias de esterco, bicharada e muito malcheirosos, dando lugar à sua cobiça, ambição e luxúria escravizaram e obrigaram na altura, milhares de simples pessoas e muitos marginais do tempo, a transportar de chicote em riste, noite e dia, a dita pedra até Mafra a troco de uma promessa e futuro milagre carnal, engendrado pelo espertalhão e interesseiro frei António de S. José.

Aqui foi o povo que livre e voluntariamente utilizou a força para levantar o pau de Santo Amaro de Arosa. Acolá foi o rei que não conseguindo levantá-lo, utilizou autoritária e prepotentemente o pau para dominar a força do povo e construir o Convento de Mafra. Santo Amaro é advogado dos ossos!

Que os seus milagres sejam tantos ou tão mais que as pedras da sua ermida e muito maiores que a dimensão da sua capelinha, nestes tempos de crise, nessa terra e neste Portugal à deriva!

E, finalmente, que o pau se parta forte e feio nos raios que nos partiram!

VIVA O SANTO AMARO!...

Oh aí, oh linda!


Joaquim Afonso




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