O PAU DE SANTO
AMARO É MAIS DIREITO QUE O RIO TORTO
(in
AROSA-Guimarães)
O Pau de Santo Amaro de Arosa é muito grande! Tão grande,
talvez, como os seus milagres! E, para o levantar até ao ponto crucial e milagreiro, ai,
ai, Jesus, que tempo e sacrifício, determinação e paciência, audácia e tenacidade de muita
e anónima gente
da freguesia, mulheres, homens, crianças a ferro e fogo e talvez a ajuda solidária
da vizinhança!
Ele em baixo muito esticado ao comprido no pavimento
do recinto feito em paralelo granítico e muito dorminhoco e apático, forçosamente
hibernado e
temporariamente estático, solitário de dia e de noite da extenuada viagem de algures
montes verdejantes
e tojados, diga-se das nojentas e picantes silvas e matos bravios, odorífico quanto baste
na pele que o reveste e protege, mas curtamente ramificado na ponta extrema do cimo detestado
em altura e bem arejado, não sobe nem desce sem a ajuda de alguém animado, carinhoso e engenhoso.
Alguns rangiam e suspiravam muito contentes no início da cerimónia marcada do
levantamento, outros mostravam-se apreensivos e cépticos com tal proeza e
aventura, mas estranhamente felizes e elas estáticas e sibilinamente muito
surpreendidas deixavam
transparecer no seu olhar maroto alguma satisfação e prazer.
Os poucos jovens alegres e animados, homens adultos
e valentes da aldeia e talvez de outras aldeias fronteiriças, alguns forasteiros de passagem
a pé na estrada, motociclo ou de carro, com ar de quase mirones ou paparrazes… peidavam-se silenciosamente e de soslaio vaidoso e
traquina, não vá
o diabo tecê-las, ao ver a dimensão, altitude e caracóis ramificados do alto e grande
mastro.
Mais ainda, cagavam-se e mijavam-se, (perdão…que
cheiro nauseabundo…),
sonoramente para quase toda a gente em alto e bom som, ao toque comprido e bastante estridente do presidente da Junta de freguesia muito engravatado e de gabardine comprida
para o acto cerimonial, de micro na mão direita pronunciando palavras de ordem e
toques de marcha
comprimidos uns e extensamente curtos outros para os que se encontravam silenciosamente marimbando
para os curiosos e mirones imprevistos, pois a cerimónia tinha de ter o seu ritmo
e brilhantismo,
defronte à capela e ao santo.
Dizia que até em alto e bom som, pronunciou palavras duras
para um ou vários motociclistas no momento mal estacionados, no recinto privado e sacro da cerimónia
e outras irreverências perturbadoras do acto.
Em
murmúrio contido
e por vezes forte, mas nada bonito, diziam alguns espectadores à moda de piropos
para o público
presente frente à estrada,
que liga Fafe a Braga,
Guimarães e Póvoa de Lanhoso e ao som de música de orquestra invisível e
altifalantes muito atrevidos
e desafinados lá do alto de um poste de electricidade, lá ia o povo ora concentrado
ora mais distraído, levantando com cordas laterais bastante compridas e para todos os magotes,
o madeiro muito esguio e imóvel do pavimento.
Vê-los todos unidos e agarrados ao enorme e fininho vergueiro
com as mãos e dedos calejados uns, fortes braços outros às compridas e resistentes
cordas foi extraordinário!
Vê-los colocar as tábuas cruzadas para suporte lento e
progressivo da ascensão o extenso e alto pau
foi extraordinário!
Vê-los erguer e colocar finalmente o pau no respectivo
buraco engenhosa e artisticamente preparado para o receber foi e é extraordinário!
Tal cena a que tive o privilégio de assistir pela primeira
vez a vida, no princípio de Janeiro de 2013, fez-me por momentos, lembrar a epopeia não do pau, mas
a epopeia do transporte da pedra de milhares de toneladas de Pero Pinheiro para a
construção do Convento
de Mafra, relatada genialmente in Memorial do Convento por José Saramago.
D. João, quinto do nome da tabela real e a rainha D. Maria
Ana Josefa muito obesos e sebentos nos corpos e nas sobrecarregadas e monárquicas
roupas interiores
cheias de esterco, bicharada e muito malcheirosos, dando lugar à sua cobiça, ambição e luxúria
escravizaram e obrigaram na altura, milhares de simples pessoas e muitos marginais do
tempo,
a transportar
de chicote em riste, noite e dia, a dita pedra até Mafra a troco de
uma promessa e futuro milagre carnal, engendrado pelo espertalhão e interesseiro
frei António de S. José.
Aqui foi o povo que livre e voluntariamente utilizou
a força
para levantar o pau de Santo Amaro de Arosa. Acolá foi o rei que não conseguindo
levantá-lo, utilizou
autoritária e prepotentemente o pau para dominar a força do povo e construir o
Convento de Mafra. Santo
Amaro é advogado dos ossos!
Que os seus milagres sejam tantos ou tão mais que as
pedras da sua ermida e muito maiores que a dimensão da sua capelinha, nestes tempos
de crise, nessa
terra e neste Portugal à deriva!
E, finalmente, que o pau se parta forte e feio nos raios
que nos partiram!
VIVA O SANTO AMARO!...
Oh aí, oh linda!
Joaquim Afonso
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