“SEMPER” - 25 DE ABRIL!
No meu cravo vermelho
de Abril renascem
pétalas matizadas, realidade ou utopia, seja o que for!
Vou falar um pouco do meu 25 de Abril de 74, onde estava, o que fazia,
amigos, sonhos, projectos e realidades. Sei que me encontrava em
aulas no Porto durante a manhã e de regresso a casa, em Gondomar, percorrendo
uma grande e conhecida rua do Porto, que passa em frente ao Palácio de Cristal, quartel
Sica 1 e Hospital de Santo António, sem rotundas, algo estranho aconteceu
algures em Portugal. Era a notícia que ecoava, já passava do meio- dia…
Algo em mim estremeceu de
espanto, curiosidade, surpresa e emoção.
Será que… o que se passou…
onde… quem… o quê… como… porquê… enfim, uma avalanche de interrogações que se
perpetuaram dia fora até altas horas da noite. Os meus sentidos ávidos de novidades
e notícias não se cansaram de esperar para ver as últimas na televisão e ouvir na
rádio todas as informações, comunicados oficiais e oficiosos, tendo sempre como
cenário e fundo a música clássica.
Creio que foi a primeira
vez que se deu uma verdadeira lição de pedagogia musical erudita, pois até
então era o malhão…malhão…folclore…corridinho…canções…pimva-pimva…fados e
guitarradas…futebol e tourada…Amália…Eusébio…festas…arraiais…procissões… e …romarias…santos…santas…milagres…
enfim, devoções respeitáveis aqui e ali que contribuíam para o status quo,
conformismo, comodismo, tradicionalismo, ritualismo cíclico, resignação,
predestinação…mas para quê tantos ismos?
Se é verdade, era uma
surpresa bem-vinda!
A agitação, movimento e falatório
aumentam nas cidades, vilas e aldeias de dia e de noite. Os cafés, núcleos
associativos e recreativos enchem-se amiúde de mais clientes e curiosos. A vida
laboral sofre intermitências, gera-se alguma confusão e apreensão entre grupos
e pessoas. Nos quarteis reina a tensão e nos serviços públicos há um certo
desnorte.
A vida e rotina quotidiana
dos cidadãos alteram-se ligeiramente e o bulício citadino e urbano aumentam.
A euforia colectiva
gera-se progressivamente à medida que os acontecimentos se vão avolumando.
Afinal, o povo estava muito
desejoso deste tão heróico momento, pois a noite de trevas, tinha sido tão longa
e misteriosa que quase toldava a visão e ensurdecia os ouvidos, para já não
falar dos neurónios!
Um povo a libertar-se à
semelhança do povo bíblico a caminho do êxodo Babilónico e da Jerusalém
prometida!
A liberdade não se compra, conquista-se!
Alguns escritores e poetas
assim o demonstraram e demonstram. Vejam-se os muitos e variados poemas e
músicas de intervenção de diversos autores.
Claro está que o passado tradicional
estava enraizado na cultura e mentalidade da maioria dos portugueses. A censura
na rádio, televisão e imprensa, ausência de liberdade de comunicação e
informação, monolitismo político e religioso, a pide - dgs, os bufos, a guerra
colonial, as perseguições políticas e laborais, as prisões, a emancipação e
descolonização, a emigração clandestina, o analfabetismo literal e funcional,
elitismo estudantil, monopólios e latifúndios de todo o género, ausência de
direitos, liberdades e garantias, fome e miséria, a tríade Deus, Pátria e
Família, estratificação social, uma educação baseada no medo, temor e devoção
como a moral mais conservadora da Igreja Católica, Apostólica, Romana e
Tridentina, enfim, uma plêiade de ignomínias…
E, depois de Abril?
A gaivota bem cantou, mas não
fez estremecer o cajado do pastor, pois continua muito verde, estático, com
muito pó e rugas, para não dizer, enferrujado!
Será que é necessário desenterrar a espada de dois gumes de D.
Afonso Henriques, o conquistador?
“Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado
De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor.”
Toda a vida guardei gado
Tenho uma cova no peito
De me encostar ao cajado
De me encostar ao cajado
Lá nos campos ao rigor
Toda a vida guardei gado
Toda a vida fui pastor.”
In Do
folclore Alentejano
“O sonho é ver as formas invisíveis “
“Da distância imprecisa, e,
com sensíveis
Movimentos da esperança e da
vontade,
Buscar na linha fria do
horizonte
A arvore, a praia, a flor, a
ave, a fonte –
Os beijos merecidos da
Verdade.”
“Ó mar salgado, quanto do teu
sal
São lagrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães
choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por
casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a lama não é pequena.
Quem quere passar além do
Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo
deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
“Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de
asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”
“Nem rei nem lei, nem paz nem
guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo
encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é
bem.
(Que ânsia distante perto
chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é
inteiro.
Ó Portugal, hoje és
nevoeiro...
É a Hora!
Valete, Fratres”
In Fernando
Pessoa
“Uma mosca sem valor
Poisa, c´o a mesma alegria,
Na careca de um doutor
Comoem qualquer porcaria.
Num arranco de loucura,
Filha desta confusão,
Vai todo o mundo à procura
Daquilo que tem à mão.
Daquilo que tem à mão.
Ser criada de um ricaço,
Desses que temos a rodos,
É dar o primeiro passo
P'ra ser criada de todos.
Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os Homens são no fundo.
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os Homens são no fundo.
Mentiu com habilidade,
Fez quantas mentiras quis;
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.
Fez quantas mentiras quis;
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério,
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério
Gosto do preto no branco,
Como costumam dizer:
Antes perder por ser franco
Que ganhar por não ser.
Num arranco de loucura,
Filha desta confusão,
Vai todo o mundo à procura
Daquilo que tem à mão.
Daquilo que tem à mão.
Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?
Deixam-me sempre confuso
As tuas palavras boas,
Por não te ver fazer uso
Dessa moral que apregoas.”
In António
Aleixo
“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança. “
In António Gedeão, 'Movimento Perpétuo'
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança. “
In António Gedeão, 'Movimento Perpétuo'
25 de Abril… sempre!
Oh, ai, ó linda!
Joaquim Afonso
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