Crónicas e Reflexões

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vª Sinfonia - O RIO TORTO




O RIO TORTO (Vª sinfonia)
O Fantasma


A freguesia de Serafão é atravessada numa determinada geografia pelo rio Torto, sobretudo os lugares de Vilarelho, Cimo de Vila, Igreja, Patelos, Lordelo e Toural... Ao longo do seu percurso ligeiramente precipitado e acidentado aqui e ali, os nossos antepassados foram construindo com maior ou menor engenho dezenas de açudes, tabiques ou poças, como se diz lá, na aldeia para armazenamento da água em tempo estival e posterior utilização em moinhos de trigo e centeio e outros engenhos de azeite, mas sobretudo nas regas de hortas, quintais e outras propriedades minifundiárias de maior dimensão próximas umas e outras bastante distantes.

Alguns dos seus históricos moleiros já desaparecidos viviam em casas próximas do seu moinho, rio, curral e jumentos. Que se saiba as águas do leito daquele rio sempre foram abundantes e deram generosamente para satisfazer estas necessidades bem como as agro pecuárias locais. Foi precisamente numa dessas poças, creio que lhe chamavam a poça comprida, já no lugar da Igreja ou próximo dela que algo inédito aconteceu, numa tarde muito quente e agradável que devia ser santa e devota…

Um grupo de rapazes deslocando-se dos dispersos lugares da terra naquele dia decidiu ir à doutrina (catequese) por caminhos mais ou menos tortos, como o dito rio, em vez de seguirem pela estrada mais a direito e segura em direcção à Igreja paroquial. À hora marcada para o início da catequese todos os presentes repararam e o abade de batina preta aprumada e colarinho branco (breviário debaixo do braço esquerdo e cana na mão direita) que alguns meninos não estavam presentes como era costume. Sobretudo as meninas mais atentas e observadoras que ficavam na parte de baixo da igreja, em duas alas como os rapazes da parte de cima, respectivamente nos lugares então reservado às mulheres de lenço na cabeça e aos homens sem chapéu, finjo não saber e não sei porquê.

Como já era habitual noutros dias, estes aprendizes de malandrecos ou levados pelo calor da altura ou pelas moscas e moscardos ou bichos voadores esquisitos, ou por ignorância trocaram os sinais informativos bem visíveis presentes na estrada, ou finalmente influenciados uns pelos outros e quem sabe com medo que o telhado da igreja desmoronasse e os sinos lhe caíssem na cabeça em vez de se dirigirem para um local santo e pouco pecaminoso, a Igreja, e rezar uns valentes e sonoros padre nossos, ave marias ou salve reginas em paz ou ainda tentados naquele fatídico dia por algum diabo à solta junto do nicho das alminhas bastante chamuscado pelas labaredas infernais, sabe-se lá por Lúcifer foram a banhos na dita poça à procura de refrigério.

Várias e opulentas árvores de fruta sobranceiravam as margens e águas um pouco turvas, cada qual com abundantes, coloridas e tentadoras peças em tamanho, cor e qualidade. Recordo-me de sobressair naquela paradisíaca e variada flora, uma árvore quer pelo seu porte, frutos e posição a que chamarei a árvore da tentação denominada figueira.

Os seus frutos muito madurinhos adivinhavam-se tentadores para todos os que se encontravam presentes e de bocas exageradamente abertas parecendo automáticos apanha- moscas ou trogloditas. Mas nada de tentações, toca a mergulhar e a nadar na tosca piscina. Assim aconteceu. Durante mais de uma hora fora uma brincadeira de bradar aos céus, piruetas, mergulhos espalhafatosos, exercícios de respiração, cambalhotas, piropos vários sempre acompanhados de boa e alegre disposição enquanto os outros meninos rezavam, rezavam para que a nós nada acontecesse naquela poça quase infernal. Mas, no meio do grupo há sempre um mais atrevido e seduzido pelas libelinhas ou talvez pelo aroma acentuado do fruto da dita árvore do jardim, qual adão e… entre a espada e a parede, eis que resolve sair do grupo e subir à árvore bendita para poder provar os deliciosos frutinhos muito amadurecidos pelo tempo e pelo sol abrasador.



Contente com seu heroísmo e invejado pelos restantes o aventureiro comia e comia tudo o que via à sua volta e não contente com o pasto próximo, ainda mais se aventurou subindo e trepando até ao cimo da árvore onde se encontravam os maiores e melhores frutos. Mas azar dos azares ou a cobiça era tanta ou a árvore zangada com tamanho e atrevido peso resolve expulsar o intruso das alturas pelo seu atrevimento e gula desmedida, fazendo-o saltar e caindo lá das alturas de cabeça para baixo, na água turva para espanto e surpresa dos afinados nadadores e aprendizes de salvadores.

Foi tamanho o ruído do seu mergulho naquelas águas paradas que o seu eco fez-se sentir na Igreja como um tremor de terra ao ponto de os outros meninos bem comportados e a prender os mandamentos da lei de Deus, se assustarem vivamente criando algum tumulto e desatenção inexplicáveis. Até os badalos dos sinos da alta torre da Igreja, esverdeados pelo tempo, pó, sol e desuso estremeceram ao ponto de tocarem indevida e levemente na campânula grossa e muito acústica parecendo ouvir-se um toque das trindades, alertando e pondo a povoação em pânico para algo estranho nesse ou outro local da freguesia.

O banhista após o mergulho forçado nunca mais dava à costa, perdão...! ...regressava à superfície da água. Surpreendidos com o facto, dizíamos olhando pasmados uns para os outros que o rapaz desapareceu sem deixar rasto. Preocupados e aflitos com tal demora, só nos apetecia regressar à Igreja e fazer como os outros meninos rezar e orar…”libera nos a malem”. A espera acentuava-se e nada de novo… O homem desapareceu do mapa e evaporou-se nas águas pouco profundas… Será que caiu na boca do inferno?

Quase a desesperar daquele advento, eis que as águas próximas do local da queda começaram a tremer como varas verdes, a tremer de forma nunca vista parecendo o início de um vulcão em mar alto e lentamente algo estranho e informe começa a vislumbrar-se ao ponto de ficarmos todos assustados e estarrecidos.

Alguns com medo e já com as calças a feder por todos os lados começaram a fugir sem roupa para junto do nicho das alminhas e outros mais destemidos permaneceram estáticos perante o enigmático e insólito fenómeno.

Lentamente aquela coisa mais se torna visível, mas a sua cor barrenta, lodosa e disforme não permitia ver o seu verdadeiro perfil. A figura robusta de cabeça achatada, o rosto carregado, a barba esquálida e o cabelo crespo e desgrenhado, os dentes amarelos e enferrujados, os olhos encovados e os ouvidos entupidos, a boca negra e de cor terrena, os membros grandes, grossos e horrendos, enfim, parecia sair do mar profundo pois tudo era uma massa cinzenta de formas monstruosas e horríveis, para não dizer medonhas que arrepiaram as carnes e cabelos só de vê-lo e ouvi-lo a mim e a todos.

À medida que as formas se delineavam com a ajuda da água começamos a ficar menos temerosos perante tal fantasma. Afinal, tratava-se do rapaz que gostava de figos e caiu à poça impulsionado pela barriguinha cheia. Soube-se mais tarde que não sofreu nenhum traumatismo craniano e hoje lavadinho em passadas águas turvas do rio já muito adulto e vivinho da silva passeando alegremente pela vila ou pela aldeia com a sua prole, lembra-se saudosamente deste episódio como se fosse hoje.

Esta peripécia chegou passados alguns dias ao conhecimento do regedor, guarda-rios e outras autoridades locais que inteirando-se melhor da situação disseram entre eles que talvez e se tivessem mais juizinho, pois são novos não pensam, era melhor terem ido às tangerinas ou maçãs do abade, junto à igreja ou às vermelhinhas cerejas do pancadas ou pêssegos do assento ou em última instância apagar a sede à tasca dos falecidos Sr.Faustino Araújo ou do Sr. Claudino.

Dizem por lá que o protagonista desta história só lamenta os outros não terem provado daqueles saborosos frutos, mas se tiverem paciência, podem prová-los recorrendo a outras figueiras ou em caso de míngua acentuada às figueiras do Zé moleiro situadas muito próximas ou a outra qualquer figueira do inferno dispersa…

Afinal, não era um monstro como se temia nem um fantasma, nem o João grande disfarçado de adamastor ou mostrengo, apenas e só um brincalhão que nesse dia, cansado das repetitivas e monocórdicas orações dos outros meninos em vez de andar por caminhos direitos resolveu enfrentar os tortos caminhos como o rio torto…

Hoje, muito se poderia fazer em prol desse rio. É urgente e necessário revisitá-lo e reinventá-lo, tratá-lo, estimá-lo para que no futuro outros meninos e meninas possam nele tomar banho e contar as suas histórias e peripécias… A terra tem um potencial natural e ecológico saudável tanto para passeios pedestres, equestres e fluviais. Mas a sua limpeza, conservação e melhoramento do seu leito urge. Há uma fauna e flora a preservar e sobretudo uma água a não contaminar e racionalizar antes que intrusos cobiçosos se aproveitem para fins impróprios e egoístas. Não permitir a poluição das suas águas e margens é um imperativo colectivo. Impedir furos e captações próximas do seu leito para proveito de poucos e desbenefício de muitos.

Mas de que é que este povo, os amigos e as autoridades estão à espera?

Que as montanhas se transformem em planícies, os santos e santas das diversas capelas deixem de fazer greve em tempos de imposta crise e saiam para a rua manifestando-se milagrosamente?

Algum milagre?

Navegar… navegar… é preciso!


Navegar… navegar… é preciso!


 

Joaquim Afonso 
 

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