A MINHA ESCOLA…
(Já não é “A MINHA” ESCOLA…”!)
Não faltavam ninhos, ovos e passarada
naqueles umbrais, telhados e cobertos, na primavera, mas claro, noutros tempos…
Quem espantou a passarada?
A professora, a Senhora da Cabeça, um invasor intruso, um falhado salvador e
oportunista, um…
Hoje a passara chilrea no ninho do pássaro
E pássaro gorjea no ninho da passara…
Recordo-me triste e ledamente da infância, do meu lugarejo da
aldeia natal, um pouco isolado e distante dos outros lugarejos da freguesia e
com fracos e reduzidos acessos de meios de transporte e comunicação onde a luz
eléctrica, transportes motorizados, telefone e outros meios da modernidade e do
progresso eram uma miragem e uma utopia inexistente, de iniciarem uma
construção-edifício, distante uns 500 metros do lugar, num monte e terreno
particular graciosamente cedido por um proprietário generoso do lugarejo
chamado António Ramos do Mariano, que pouco a pouco veio a transformar-se num
edifício escolar moderno, tipo plano centenário para o ensino básico, servindo
os lugares de Vilarelho e ao mesmo tempo os meninos de outros lugares
relativamente mais distantes, Cimo de Vila, Outeiro do Paço, Igreja e Patelos.
Foi lá que num fragmento de ardósia comprado pela minha querida
mãe, na feira de Fafe, julgo eu, mal polida e artisticamente encaixilhada,
comecei a garatujar as primeiras letrinhas do alfabeto e a esculpir
vaidosamente os primeiros números, aprender a escrever, ler e contar já não
pelos dedos, não as histórias, mas a tabuada e as diversas contas bem como a
conhecer teoricamente o meu país e sua história, insular e ultramarino (na
altura), que sinceramente não sabia que existia para além do meu minúsculo e
reduzido mundo onde nasci e habitava, diga-se com enorme dificuldade, pois a
régua de pau grosso com olhos arregalados para mim e meus condiscípulos e
aberta ao centro bem como a cana verde fina quais testemunhos remotos,
jurássicos e inesquecíveis de tal acontecimento dado que tudo aquilo era novo e
muito enigmático para mim.
Era uma criança irrequieta, traquina, aventureira, ávida de
curiosidade e muito ligada à natureza, aos animais e à ruralidade circundante.
Vivia rodeado e acolitado por diversas espécies que faziam parte do meu
minúsculo mundo, dos meus irmãos e irmã bem como dos meus progenitores e uma
tia e vizinhos circundantes.
Quando um animal nascia e eram muitos felizmente, festejávamos
alegremente a sua chegada, mas quando um partia todos nós sentíamos a sua falta
e chorávamos sentidamente a sua ausência.
Nasci numa casa simples e rústica, bastante espaçosa para os
animais criados em baixo e para as pessoas em cima que nela habitavam,
razoavelmente abastada em bens materiais e naturais para as pessoas do núcleo e
para os seus generosos trabalhadores, mas sem o conforto actual, rodeado de
vacas, ovelhas, cabras e cabritos, coelhos e porcos, galinhas, patos e gansos,
cães, gatos muitos e também no meio de uma natureza agreste e doce cheia das
mais diversas espécies de árvores de fruto e outras espécies típicas que
contribuíam para o sustento familiar e de alguns outros membros da comunidade
local.
A minha primeira entrada na escola foi um delirante sonho.
Diga-se, em abono da verdade, que tive sempre como colega a filha
do caseiro do Sr. Manuel do Lino já falecido, que se chamava Rosa, penso eu,
pois a escola era mista e nela funcionavam simultaneamente 4 classes com uma
professora que vinha cedissimo das terras da justiça de Fafe, percorrendo
depois da saída da camioneta do falecido Amândio de Oliveira, (que mais parecia
uma antiquada locomotiva vociferando em altos roncos e a vomitar carvão pelas
tumefacientes narinas “Tro-fá-Fafe-Tro-fá-Fafe… “pára, pára ou anda devidamente, porra, carbonária do carago, dizia eu baixinho entre dentes”, no lugar de Lordelo e percorria depois o
maldito e bem acolchoado caminho de lesmas, alegremente nojentas, pois tinham
os cornos sempre inchados e vaidosamente enfeitados da boa vida que levavam,
claro, os caracóis, outros insectos e ainda outros batráquios repugnantes,
percorria os tradicionalmente ajavardados caminhos de folhas e de outros lixos,
as recheadas valetas e por fim, os mal-aventurados, rotineiros e
crucificantes 4 Km a pé quase descalça,
depois de passar o ledo e triste rio Torto, próximo dos moinhos e dos ecos dos
burros do Zé Moleiro, irmão do triste rio e antes alegre Torto rio de
Vilarelho, sempre a subir, sempre a andar, pela estrada meia areenta e quelhos
sinuosos, ao sol, ao vento, à chuva, uma verdadeira atleta maratonista e
heroína, de reconhecido mérito, mas que infelizmente não sei dizer o seu
verdadeiro nome, porque não me recordo.
Recordo-me dela pelo que conseguiu semear no meu infértil e
renitente campo e regar no meu imberbe e néscio quintal, embora nunca tenha
tido a sensatez e o privilégio de ver o seu imaturo e irreverente fruto.
Ressalvo, ainda, que a dita e para mim muito distinta e hoje
talvez provecta senhora, ao passar no nicho das alminhas, no lugar de Patelos,
veja-se a curva onde se encontra, tinha de deixar o seu óbolo na respectiva
caixinha para posteriormente ser recolhido por receptor incógnito.
Mas para quê e para que fim?
Foi precisamente nesta singular e histórica escola básica que
iniciei a minha aventura estóica e muito a custo a minha encantada e incipiente
dita pré-alfabetização e mini - civilização depois de um período de natural e
divinal barbárie, dado que até àquele momento sempre tinha vivido em ambiente e
liberdade natural, salvaguardando-se e cumprindo-se as regras impostas pelos
progenitores.
Aprendi, como os aspirantes a médicos actuais que estudam e optam
por estudar em terras lusitanas, as partes constituintes da anatomia do corpo
humano e penso que até lá - na escola - existia um brilhante exemplo de
esqueleto humano em plástico ou outro material não identificado, certamente dos
humanos lusos ou celtas com coluna verdadeiramente vertebral, num canto a que
ninguém ligava. Recordo-me que a distinta professora nos ensinou devota e
categoricamente as partes constituintes do corpo humano, a saber: cabeça,
tronco e membros.
Mas, lembro-me ainda do início das obras e das primordiais pedras
saídas a ferro e fogo da matéria-prima existente no local e terras adjacentes,
da construção, para mim da saudosa escola, nos
anos 50 e até de pessoas do lugar que lá trabalharam, nomeadamente os senhores
Serafim Pedro e o Joaquim da Aurora como pedreiros e talvez outros, mas que
infelizmente não consigo recordar.
Muitas vezes e nas minhas isoladas fugas e solitárias
deambulações, traquinices ou talvez à procura de coelhos, toupeiras
miraculosamente com óculos, raposas e lobos, texugos, gambozinos, tortulhos,
pássaros diversos em regime diurno/nocturno, cobras e lagartos, libelinhas ou
vacas – loiras ou loucas com cio diurno e nocturno, gaviões ou milhafres,
gaios, melros, pegas de penugem natural e naturais do meios ambiente,
rouxinóis, cucos, toutinegras ou brancas e outras espécies cinegéticas, dizem
hoje em extinção, como pintassilgos e tordos e também frutos silvestres e
aviadores da natureza ou andando a inspeccionar a fruta dos meus vizinhos que
ia amadurecendo de forma calma e multicolor nos cimos das árvores ou andando a
guardar a pastagem dos diversos animais do redil, trabalhadores uns e outros
menos, que nos davam a sua companhia, docilidade, a simpatia, o leite, a carne
e a lã - obrigado tia Emília Afonso - pelas muitas e quentinhas meias de lã
feitas ou tratando da nossa dispersa quinta, dirigia-me ao local e às pessoas
labutadoras (lá não havia lugar para
indolentes, oportunistas e preguiçosos nem com síndromes de parasitismo), digo, vendo-os trabalhar arduamente
a pedra e o terreno.
Foi assim que vi erigir o edifício que viria a ser mais tarde, a
minha primeira caverna platónica, centro cultural e berço do “l´enfant sauvage”.
Descrevo-a: continha duas salas, uma à entrada para deixar a
simples e humilde parca indumentária e outros objectos e a sala de aula em
quadrado, apetrechada com as cadeiras de madeira com embutido tinteiro lateral,
secretária, quadro preto e estrado, armários com alguns objectos e pesos de
formas estranhas na altura e quase sempre esfingicamente estáticos, uma lareira
e também nas paredes laterais em lugar de destaque as figuras proeminentes do
regime/estado novo/da nação, Salazar, Américo Tomás, Craveiro Lopes e talvez
outros que agora não consigo vislumbrar e num canto estratégico da sala uma
moderna lareira, penso que com chaminé, sem lenha, sem potes nem penicos,
invejada talvez por todos os da aldeia e até ao tempo divinamente virgem.
Dentro da sala reinava a autoridade, o respeito, a disciplina, a ordem, o
silêncio, o estudo.
Não me recordo muito bem dos 3 primeiros anos. Sei apenas que as
coisas iam correndo rotineiramente. Quando cheguei ao 4º ano, aí “Hoc opus hic labor est”.
Devido a dificuldades de expressão escrita, muitos erros
ortográficos, penso eu – (só num ditado
uma vez acho que foram à volta de
trinta e tais) - e logo adoçados amargamente com umas 15 reguadas em cada
infantil e tenra mão e também muito fraco nas contas, mas na tabuada e história
um expert, mas surpreendentemente reprovei com muita tristeza para os meus pais
e humilhação para mim que tive de repetir o ano.
Tive muito medo das consequências, mas tudo acabou em bonança. Em
todos estes anos as recordações que tenho desses tempos são as mais
maravilhosas. Vivia quase num paraíso onde reinava a alegria, a brincadeira, a
fantasia, o sonho, a miragem do acordar e do deitar – apesar de ser um humilde
e verdadeiro oásis na encruzilhada de vales, campos e montanhas.
Brincava e corria no recinto irregular de terra batida e saibrosa
da escola, jogava à bola, não à bola de borracha ou pele como hoje, mas feita
manual e artesanalmente de meias e outros materiais, jogava à macaca com as
meninas, ao tricolé, aos botões e patacos antigos, ao perna de pau, às muletas,
luta entre colegas, enfim, todos os dias a bata branca obrigatória era dezenas
de vezes banhada no tanque da casa depois de ter sido testado o selo da
qualidade prestada, rota, suja e a lousa semi - partida das inocentes e caricatas
brincadeiras.
Recordo-me dos filhos e filhas dos senhores Manuel da Portela,
Amália Raposa, Abel Carvalho, Domingos Mota, Amândio das Barrelas, Artur e Abel
Carvalho, Artur, João e António Melros, caseiros no tempo, de um grande
proprietário de Lordelo, Manuel do Lino – pai do falecido D. António Monteiro,
Fernando Capador, Custódio Luxo, Zé da Boiça, Maria Cancela, Tino Pairolo e …
outros cujo nome a memória…
Foi com os pais e filhos destes grandes homens do meu núcleo
rural, trabalhadores incansáveis e de grandes privações, a sua descendência e
rebanho que vivi e convivi durante a minha infância, dado que no lugar quase
toda a gente entrava e saí de casa de toda a gente sem preconceitos e com muito
respeito. Uma verdadeira comunidade tanto nas horas boas como nas amargas.
E, afinal, a escola?
Depois de concluir a 4ª classe, reiterada a ferro e fogo, a dita
escola funcionou até à actualidade.
Mas, acontece que devido às alterações e mudanças no sistema
educativo, ajustamento na rede escolar e redução da natalidade, os meninos da
minha aldeia viram-se forçosamente obrigados a mudar de escola e do seu meio.
A escola que antes funcionava como um paraíso de vida, alegria,
amor, sonho e também como um local de ensino/aprendizagem e de lazer para o
lugarejo, transformou-se airosa e ardilosamente num edifício triste e sem vida,
morrendo prematura e ingloriamente para a sua função e o objectivo para que
nasceu…
Mas, como passarinho engaiolado não sabe voar, que chilreiem os
canários e periquitos, mie a abandonada e acolhida gata perneta ou ladre a
infortunada e feliz LuKy, o menino semi-selvagem e feliz, deixou quase
voluntariamente o nativo éden e começou a aprender a voar seduzido pelas flores
da primavera.
Hoje, nostálgica e melancolicamente, qual camelo sem deserto, sem
oásis, sem miragens e de reduzida bossa, olhando desalmada e tibiamente para as
esfinges e as pirâmides em ruína e querendo ruidosamente zurrar aos cantos da
terra, não encontra eco do seu lamento e tristeza, dado que já não vê as
brincadeiras, não ouve os gritos, o bulício jovem e criativo das crianças antes
açúcar dos labutadores e abandonados anciãos, mas sim, o silêncio expectante, o
marasmo doentio, a solidão, as ave-marias estridentes e talvez doentias e
opressoras de outrora.
Parece que até as ervinhas dos campos definharam, os pinhais,
oliveiras, laranjeiras e outras árvores laboriosas e pomposas na dimensão e
fertilidade, tornaram-se estéreis e raquíticas.
Até os animais já não pastam nem berram, não bebem na fonte da
aldeia, não brincam e se calhar já não procriam, os grilos e grilas, cobras e
lagartos, sardões, lesmas, ratos e doninhas, pássaros e passaras, libelinhas
matizadas, coelhos, perdizes, mochos e outras aves nocturnas calaram impiedosa
e traiçoeiramente o seu pio.
Enfim, provavelmente a terra onde antes corria abundante leite e
mel, carne e frutos em tanta variedade, zangou-se com o seu próprio dono e as
suas próprias entranhas.
Interrogo-me, seriamente, sobre o que terá acontecido.
Provavelmente, um castigo divino como vociferavam no passado os pregadores
ambulantes que até faziam tremer a Costa de Paredes, as pedras da calçada de
Gondillanes e até faiscar a torre da igreja.
Um dilúvio, um terramoto, uma catástrofe?
Penso, sinceramente, que
não! Uma ideia louca e visionária, uma aparição repentina, um sonho/pesadelo
como o do José do Egipto, uma doença, uma depressão colectiva, um
histerismo/fanatismo, o advento de um milagre, o medo…
A minha escola já não é a minha escola…
Quando olho e tento enxergar para além do meu olhar desta visão
distorcida pela miopia, astigmatismo e tensão ocular consigo ver as paisagens
verdejantes e primitivas animadas de viço e as calçadas e os socalcos
laboriosos erguidos pelo suor dos meus antepassados heróicos, as penedias e
pequenas serranias aqui e ali, quase santuário divino sem santo, nem altar nem
velas artificiais, que todos admiravam, preservavam, sacramente adoravam.
É que nesse tempo não havia santas nem santos milagreiros que nos
valessem nas aflições várias, bombeiro que apagasse ou ateasse o fogo ou
levasse o moribundo ao curandeiro ou hospital, médico que tratasse as
inesperadas e malditas maleitas, demiurgo vigilante.
Éramos alegres e tristemente pobres, humildes, desprotegidos,
servos inservientes e abandonados pelo poder político e religioso e em momentos
de aflição e muitos foram, todos ou alguns se viravam às vezes para a santa
Bárbara virgem, santa Cristina que d´Agrela e outros santos e santas da devoção
individual e da religiosidade popular.
Não consta na minha memória e penso que não há testemunhos, até
porque os acessos não eram fáceis, que um padre ou um Bispo ou outra entidade
superior visitassem tão estranhos e humanos seres em recôndito lugar. Muitas
casas tinham nichos da sua devoção.
Recentemente tivera conhecimento da estranha e surpreendente
transformação da “minha” escola numa capela de devoção cujo oráculo, ouço dizer, é a
santa da cabeça.
Mas, que cabeça…!
Inaugurada com pompa e circunstância pelas diversas autoridades
religiosas e civis regionais.
Mas, que paradoxo – “a minha escola” transformada num santuário!
Claro, hoje têm santa que os proteja e os milagres certamente irão
acontecer… santos e santas!…
Mas, a propósito, de quê?
Existe actualmente na freguesia as belas e históricas capelas de
S. António do Barreiro, S. Gonçalo de Vila Chã, Sra de Lurdes de Lordelo e a
Igreja paroquial de Serafão, no lugar da Igreja, a que se acrescenta agora, a
escola dissimulada de capela da Sra da Cabeça, no lugar de Vilarelho.
Bem, por este caminho, claro está, estamos quase a chegar a S.
Michel del Monte, a Bracara Augusta e a Santiago de Compostela… mas faltará
ainda muito mais, mesmo muito, para chegar a Roma ou a Bizâncio!
A minha escola já não é
a minha escola!
O nosso ribeiro torto já não é o nosso ribeiro!
As nossas águas e as nossas fontes já não são as nossas fontes e
águas!
Os nossos campos e montes já não são os nossos montes e campos!
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…
Mas, não pretendo ser o monte dos vendavais, Deus me livre, nem a
reincarnação virtual e moderna do Velho do Restelo, mas apetece-me parafrasear
o famoso provérbio bíblico:
“Perdoai-lhes Senhor, pois
não sabem o que fazem!”
Ó, ai, ó linda!
Joaquim Afonso
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