Crónicas e Reflexões

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A MINHA ESCOLA JÁ NÃO É A MINHA ESCOLA





A MINHA ESCOLA…
(Já não éA MINHA” ESCOLA”!)


Não faltavam ninhos, ovos e passarada naqueles umbrais, telhados e cobertos, na primavera, mas claro, noutros tempos…

Quem espantou a passarada? A professora, a Senhora da Cabeça, um invasor intruso, um falhado salvador e oportunista, um…

Hoje a passara chilrea no ninho do pássaro
E pássaro gorjea no ninho da passara…


Recordo-me triste e ledamente da infância, do meu lugarejo da aldeia natal, um pouco isolado e distante dos outros lugarejos da freguesia e com fracos e reduzidos acessos de meios de transporte e comunicação onde a luz eléctrica, transportes motorizados, telefone e outros meios da modernidade e do progresso eram uma miragem e uma utopia inexistente, de iniciarem uma construção-edifício, distante uns 500 metros do lugar, num monte e terreno particular graciosamente cedido por um proprietário generoso do lugarejo chamado António Ramos do Mariano, que pouco a pouco veio a transformar-se num edifício escolar moderno, tipo plano centenário para o ensino básico, servindo os lugares de Vilarelho e ao mesmo tempo os meninos de outros lugares relativamente mais distantes, Cimo de Vila, Outeiro do Paço, Igreja e Patelos.

Foi lá que num fragmento de ardósia comprado pela minha querida mãe, na feira de Fafe, julgo eu, mal polida e artisticamente encaixilhada, comecei a garatujar as primeiras letrinhas do alfabeto e a esculpir vaidosamente os primeiros números, aprender a escrever, ler e contar já não pelos dedos, não as histórias, mas a tabuada e as diversas contas bem como a conhecer teoricamente o meu país e sua história, insular e ultramarino (na altura), que sinceramente não sabia que existia para além do meu minúsculo e reduzido mundo onde nasci e habitava, diga-se com enorme dificuldade, pois a régua de pau grosso com olhos arregalados para mim e meus condiscípulos e aberta ao centro bem como a cana verde fina quais testemunhos remotos, jurássicos e inesquecíveis de tal acontecimento dado que tudo aquilo era novo e muito enigmático para mim.

Era uma criança irrequieta, traquina, aventureira, ávida de curiosidade e muito ligada à natureza, aos animais e à ruralidade circundante. Vivia rodeado e acolitado por diversas espécies que faziam parte do meu minúsculo mundo, dos meus irmãos e irmã bem como dos meus progenitores e uma tia e vizinhos circundantes. 

Quando um animal nascia e eram muitos felizmente, festejávamos alegremente a sua chegada, mas quando um partia todos nós sentíamos a sua falta e chorávamos sentidamente a sua ausência.

Nasci numa casa simples e rústica, bastante espaçosa para os animais criados em baixo e para as pessoas em cima que nela habitavam, razoavelmente abastada em bens materiais e naturais para as pessoas do núcleo e para os seus generosos trabalhadores, mas sem o conforto actual, rodeado de vacas, ovelhas, cabras e cabritos, coelhos e porcos, galinhas, patos e gansos, cães, gatos muitos e também no meio de uma natureza agreste e doce cheia das mais diversas espécies de árvores de fruto e outras espécies típicas que contribuíam para o sustento familiar e de alguns outros membros da comunidade local.
A minha primeira entrada na escola foi um delirante sonho. 

Diga-se, em abono da verdade, que tive sempre como colega a filha do caseiro do Sr. Manuel do Lino já falecido, que se chamava Rosa, penso eu, pois a escola era mista e nela funcionavam simultaneamente 4 classes com uma professora que vinha cedissimo das terras da justiça de Fafe, percorrendo depois da saída da camioneta do falecido Amândio de Oliveira, (que mais parecia uma antiquada locomotiva vociferando em altos roncos e a vomitar carvão pelas tumefacientes narinas “Tro-fá-Fafe-Tro-fá-Fafe… “pára, pára ou anda devidamente, porra, carbonária do carago, dizia eu baixinho entre dentes”, no lugar de Lordelo e percorria depois o maldito e bem acolchoado caminho de lesmas, alegremente nojentas, pois tinham os cornos sempre inchados e vaidosamente enfeitados da boa vida que levavam, claro, os caracóis, outros insectos e ainda outros batráquios repugnantes, percorria os tradicionalmente ajavardados caminhos de folhas e de outros lixos, as recheadas valetas e por fim, os mal-aventurados, rotineiros e crucificantes  4 Km a pé quase descalça, depois de passar o ledo e triste rio Torto, próximo dos moinhos e dos ecos dos burros do Zé Moleiro, irmão do triste rio e antes alegre Torto rio de Vilarelho, sempre a subir, sempre a andar, pela estrada meia areenta e quelhos sinuosos, ao sol, ao vento, à chuva, uma verdadeira atleta maratonista e heroína, de reconhecido mérito, mas que infelizmente não sei dizer o seu verdadeiro nome, porque não me recordo. 

Recordo-me dela pelo que conseguiu semear no meu infértil e renitente campo e regar no meu imberbe e néscio quintal, embora nunca tenha tido a sensatez e o privilégio de ver o seu imaturo e irreverente fruto.

Ressalvo, ainda, que a dita e para mim muito distinta e hoje talvez provecta senhora, ao passar no nicho das alminhas, no lugar de Patelos, veja-se a curva onde se encontra, tinha de deixar o seu óbolo na respectiva caixinha para posteriormente ser recolhido por receptor incógnito.

Mas para quê e para que fim?

Foi precisamente nesta singular e histórica escola básica que iniciei a minha aventura estóica e muito a custo a minha encantada e incipiente dita pré-alfabetização e mini - civilização depois de um período de natural e divinal barbárie, dado que até àquele momento sempre tinha vivido em ambiente e liberdade natural, salvaguardando-se e cumprindo-se as regras impostas pelos progenitores.

Aprendi, como os aspirantes a médicos actuais que estudam e optam por estudar em terras lusitanas, as partes constituintes da anatomia do corpo humano e penso que até lá - na escola - existia um brilhante exemplo de esqueleto humano em plástico ou outro material não identificado, certamente dos humanos lusos ou celtas com coluna verdadeiramente vertebral, num canto a que ninguém ligava. Recordo-me que a distinta professora nos ensinou devota e categoricamente as partes constituintes do corpo humano, a saber: cabeça, tronco e membros.

Mas, lembro-me ainda do início das obras e das primordiais pedras saídas a ferro e fogo da matéria-prima existente no local e terras adjacentes, da construção, para mim da saudosa escola, nos anos 50 e até de pessoas do lugar que lá trabalharam, nomeadamente os senhores Serafim Pedro e o Joaquim da Aurora como pedreiros e talvez outros, mas que infelizmente não consigo recordar.

Muitas vezes e nas minhas isoladas fugas e solitárias deambulações, traquinices ou talvez à procura de coelhos, toupeiras miraculosamente com óculos, raposas e lobos, texugos, gambozinos, tortulhos, pássaros diversos em regime diurno/nocturno, cobras e lagartos, libelinhas ou vacas – loiras ou loucas com cio diurno e nocturno, gaviões ou milhafres, gaios, melros, pegas de penugem natural e naturais do meios ambiente, rouxinóis, cucos, toutinegras ou brancas e outras espécies cinegéticas, dizem hoje em extinção, como pintassilgos e tordos e também frutos silvestres e aviadores da natureza ou andando a inspeccionar a fruta dos meus vizinhos que ia amadurecendo de forma calma e multicolor nos cimos das árvores ou andando a guardar a pastagem dos diversos animais do redil, trabalhadores uns e outros menos, que nos davam a sua companhia, docilidade, a simpatia, o leite, a carne e a lã - obrigado tia Emília Afonso - pelas muitas e quentinhas meias de lã feitas ou tratando da nossa dispersa quinta, dirigia-me ao local e às pessoas labutadoras (lá não havia lugar para indolentes, oportunistas e preguiçosos nem com síndromes de parasitismo), digo, vendo-os trabalhar arduamente a pedra e o terreno.
Foi assim que vi erigir o edifício que viria a ser mais tarde, a minha primeira caverna platónica, centro cultural e berço do “l´enfant sauvage”.

Descrevo-a: continha duas salas, uma à entrada para deixar a simples e humilde parca indumentária e outros objectos e a sala de aula em quadrado, apetrechada com as cadeiras de madeira com embutido tinteiro lateral, secretária, quadro preto e estrado, armários com alguns objectos e pesos de formas estranhas na altura e quase sempre esfingicamente estáticos, uma lareira e também nas paredes laterais em lugar de destaque as figuras proeminentes do regime/estado novo/da nação, Salazar, Américo Tomás, Craveiro Lopes e talvez outros que agora não consigo vislumbrar e num canto estratégico da sala uma moderna lareira, penso que com chaminé, sem lenha, sem potes nem penicos, invejada talvez por todos os da aldeia e até ao tempo divinamente virgem. Dentro da sala reinava a autoridade, o respeito, a disciplina, a ordem, o silêncio, o estudo.

Não me recordo muito bem dos 3 primeiros anos. Sei apenas que as coisas iam correndo rotineiramente. Quando cheguei ao 4º ano, aí “Hoc opus hic labor est”.

Devido a dificuldades de expressão escrita, muitos erros ortográficos, penso eu – (só num ditado uma vez acho que foram à volta de trinta e tais) - e logo adoçados amargamente com umas 15 reguadas em cada infantil e tenra mão e também muito fraco nas contas, mas na tabuada e história um expert, mas surpreendentemente reprovei com muita tristeza para os meus pais e humilhação para mim que tive de repetir o ano.

Tive muito medo das consequências, mas tudo acabou em bonança. Em todos estes anos as recordações que tenho desses tempos são as mais maravilhosas. Vivia quase num paraíso onde reinava a alegria, a brincadeira, a fantasia, o sonho, a miragem do acordar e do deitar – apesar de ser um humilde e verdadeiro oásis na encruzilhada de vales, campos e montanhas.

Brincava e corria no recinto irregular de terra batida e saibrosa da escola, jogava à bola, não à bola de borracha ou pele como hoje, mas feita manual e artesanalmente de meias e outros materiais, jogava à macaca com as meninas, ao tricolé, aos botões e patacos antigos, ao perna de pau, às muletas, luta entre colegas, enfim, todos os dias a bata branca obrigatória era dezenas de vezes banhada no tanque da casa depois de ter sido testado o selo da qualidade prestada, rota, suja e a lousa semi - partida das inocentes e caricatas brincadeiras.

Recordo-me dos filhos e filhas dos senhores Manuel da Portela, Amália Raposa, Abel Carvalho, Domingos Mota, Amândio das Barrelas, Artur e Abel Carvalho, Artur, João e António Melros, caseiros no tempo, de um grande proprietário de Lordelo, Manuel do Lino – pai do falecido D. António Monteiro, Fernando Capador, Custódio Luxo, Zé da Boiça, Maria Cancela, Tino Pairolo e … outros cujo nome a memória…

Foi com os pais e filhos destes grandes homens do meu núcleo rural, trabalhadores incansáveis e de grandes privações, a sua descendência e rebanho que vivi e convivi durante a minha infância, dado que no lugar quase toda a gente entrava e saí de casa de toda a gente sem preconceitos e com muito respeito. Uma verdadeira comunidade tanto nas horas boas como nas amargas.

E, afinal, a escola?
Depois de concluir a 4ª classe, reiterada a ferro e fogo, a dita escola funcionou até à actualidade.

Mas, acontece que devido às alterações e mudanças no sistema educativo, ajustamento na rede escolar e redução da natalidade, os meninos da minha aldeia viram-se forçosamente obrigados a mudar de escola e do seu meio.

A escola que antes funcionava como um paraíso de vida, alegria, amor, sonho e também como um local de ensino/aprendizagem e de lazer para o lugarejo, transformou-se airosa e ardilosamente num edifício triste e sem vida, morrendo prematura e ingloriamente para a sua função e o objectivo para que nasceu…

Mas, como passarinho engaiolado não sabe voar, que chilreiem os canários e periquitos, mie a abandonada e acolhida gata perneta ou ladre a infortunada e feliz LuKy, o menino semi-selvagem e feliz, deixou quase voluntariamente o nativo éden e começou a aprender a voar seduzido pelas flores da primavera.

Hoje, nostálgica e melancolicamente, qual camelo sem deserto, sem oásis, sem miragens e de reduzida bossa, olhando desalmada e tibiamente para as esfinges e as pirâmides em ruína e querendo ruidosamente zurrar aos cantos da terra, não encontra eco do seu lamento e tristeza, dado que já não vê as brincadeiras, não ouve os gritos, o bulício jovem e criativo das crianças antes açúcar dos labutadores e abandonados anciãos, mas sim, o silêncio expectante, o marasmo doentio, a solidão, as ave-marias estridentes e talvez doentias e opressoras de outrora.

Parece que até as ervinhas dos campos definharam, os pinhais, oliveiras, laranjeiras e outras árvores laboriosas e pomposas na dimensão e fertilidade, tornaram-se estéreis e raquíticas. 

Até os animais já não pastam nem berram, não bebem na fonte da aldeia, não brincam e se calhar já não procriam, os grilos e grilas, cobras e lagartos, sardões, lesmas, ratos e doninhas, pássaros e passaras, libelinhas matizadas, coelhos, perdizes, mochos e outras aves nocturnas calaram impiedosa e traiçoeiramente o seu pio.

Enfim, provavelmente a terra onde antes corria abundante leite e mel, carne e frutos em tanta variedade, zangou-se com o seu próprio dono e as suas próprias entranhas.
Interrogo-me, seriamente, sobre o que terá acontecido. Provavelmente, um castigo divino como vociferavam no passado os pregadores ambulantes que até faziam tremer a Costa de Paredes, as pedras da calçada de Gondillanes e até faiscar a torre da igreja.
Um dilúvio, um terramoto, uma catástrofe?

 Penso, sinceramente, que não! Uma ideia louca e visionária, uma aparição repentina, um sonho/pesadelo como o do José do Egipto, uma doença, uma depressão colectiva, um histerismo/fanatismo, o advento de um milagre, o medo…

A minha escola já não é a minha escola…

Quando olho e tento enxergar para além do meu olhar desta visão distorcida pela miopia, astigmatismo e tensão ocular consigo ver as paisagens verdejantes e primitivas animadas de viço e as calçadas e os socalcos laboriosos erguidos pelo suor dos meus antepassados heróicos, as penedias e pequenas serranias aqui e ali, quase santuário divino sem santo, nem altar nem velas artificiais, que todos admiravam, preservavam, sacramente adoravam.

É que nesse tempo não havia santas nem santos milagreiros que nos valessem nas aflições várias, bombeiro que apagasse ou ateasse o fogo ou levasse o moribundo ao curandeiro ou hospital, médico que tratasse as inesperadas e malditas maleitas, demiurgo vigilante. 

Éramos alegres e tristemente pobres, humildes, desprotegidos, servos inservientes e abandonados pelo poder político e religioso e em momentos de aflição e muitos foram, todos ou alguns se viravam às vezes para a santa Bárbara virgem, santa Cristina que d´Agrela e outros santos e santas da devoção individual e da religiosidade popular.
Não consta na minha memória e penso que não há testemunhos, até porque os acessos não eram fáceis, que um padre ou um Bispo ou outra entidade superior visitassem tão estranhos e humanos seres em recôndito lugar. Muitas casas tinham nichos da sua devoção.

Recentemente tivera conhecimento da estranha e surpreendente transformação da “minha” escola numa capela de devoção cujo oráculo, ouço dizer, é a santa da cabeça.
Mas, que cabeça…!

Inaugurada com pompa e circunstância pelas diversas autoridades religiosas e civis regionais.

Mas, que paradoxo – “a minha escola” transformada num santuário!
Claro, hoje têm santa que os proteja e os milagres certamente irão acontecer… santos e santas!… 

Mas, a propósito, de quê?

Existe actualmente na freguesia as belas e históricas capelas de S. António do Barreiro, S. Gonçalo de Vila Chã, Sra de Lurdes de Lordelo e a Igreja paroquial de Serafão, no lugar da Igreja, a que se acrescenta agora, a escola dissimulada de capela da Sra da Cabeça, no lugar de Vilarelho.

Bem, por este caminho, claro está, estamos quase a chegar a S. Michel del Monte, a Bracara Augusta e a Santiago de Compostela… mas faltará ainda muito mais, mesmo muito, para chegar a Roma ou a Bizâncio!

A minha escola já não é a minha escola!

O nosso ribeiro torto já não é o nosso ribeiro!
As nossas águas e as nossas fontes já não são as nossas fontes e águas!
Os nossos campos e montes já não são os nossos montes e campos!
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

Mas, não pretendo ser o monte dos vendavais, Deus me livre, nem a reincarnação virtual e moderna do Velho do Restelo, mas apetece-me parafrasear o famoso provérbio bíblico:
Perdoai-lhes Senhor, pois não sabem o que fazem!

Ó, ai, ó linda!

Joaquim Afonso



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