Antigamente e talvez, ainda hoje, em
muitas aldeias e terras do norte e provavelmente noutras regiões do país, o asinus (vulgo asno) era um animal respeitável
e venerado, não pelas patadas ou coices que exibia à mínima provocação ou pelo
zurrar estridente, fazendo lembrar as badaladas tangentes de um campanário, mas
porque servia docilmente os interesses e caprichos domésticos dos seus donos,
sem os questionar ou zzu…rrar.
Acontece que numa determinada região
deste nosso lindo (…), heróico e intrigante Portugal, o dito autarca tinha uma
grande e próspera propriedade junto à praia com maravilhosas e invejáveis
vistas para o mar e a imensidão do oceano.
Nela, o burro pastava e zurrava livre e
alegremente perante o olhar pasmado e estupefacto do dono e de todos os
vizinhos, que o admiravam pela sua postura, rectidão e sossego. Muitas vezes
provocado a desacatos por intrusos indesejáveis, reagia com passiva e admirável
serenidade.
Não tendo o autarca, devido às suas
longas e opiperas reuniões e outras tarefas adjacentes à sua função e
responsabilidade, tempo e disponibilidade para a modernização e rentabilização
da quinta, decidiu então, depois de consultar a sua provecta e senil família,
colocá-la à venda.
Surgiram de imediato inúmeros
interessados, mas nem todos reuniam as condições exigidas. Após exausta e
ponderada reflexão e de criteriosa selecção dos interessados, o autarca decide
vendê-la ao primo da prima do primo. Foi deveras uma decisão difícil, dado que
ela lhe tinha calhado numa herança de entes afastados.
Negócio fechado.
O primo da prima do primo, depois de
tirar umas dúvidas na capital e consultar agentes da especialidade, decide
avançar na construção imobiliária. Aquilo de que era proprietário deixou de o
ser, ficou para outro com muita pena da sua bela e elegantíssima mulher.
Construídos os prédios em extensão e em altura, praticamente aquilo que era uma quinta e paraíso do burro, deixou de o ser para ser o paraíso de…de…de… e para tristeza e desencanto do asino e de todos os que o admiravam e ouviam. Até os vizinhos estranharam tal deformação arquitectónica.
O que antes alimentava e seduzia o burro deixa agora de o apaixonar ao ponto de nas redondezas nunca mais se ouvir o eco do animal.
Todos os dias a população olhava saudosa e tristemente para o local da antiga quinta, mas infelizmente não via, não ouvia o burro nem a praia nem o mar!
Apenas diziam baixinho entre si e entre dentes:
Construídos os prédios em extensão e em altura, praticamente aquilo que era uma quinta e paraíso do burro, deixou de o ser para ser o paraíso de…de…de… e para tristeza e desencanto do asino e de todos os que o admiravam e ouviam. Até os vizinhos estranharam tal deformação arquitectónica.
O que antes alimentava e seduzia o burro deixa agora de o apaixonar ao ponto de nas redondezas nunca mais se ouvir o eco do animal.
Todos os dias a população olhava saudosa e tristemente para o local da antiga quinta, mas infelizmente não via, não ouvia o burro nem a praia nem o mar!
Apenas diziam baixinho entre si e entre dentes:
- Aquela quinta era do burro do autarca!
Joaquim Afonso
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