Crónicas e Reflexões

terça-feira, 1 de abril de 2014

O BURRO DO AUTARCA OU O AUTARCA DO BURRO




Antigamente e talvez, ainda hoje, em muitas aldeias e terras do norte e provavelmente noutras regiões do país, o asinus (vulgo asno) era um animal respeitável e venerado, não pelas patadas ou coices que exibia à mínima provocação ou pelo zurrar estridente, fazendo lembrar as badaladas tangentes de um campanário, mas porque servia docilmente os interesses e caprichos domésticos dos seus donos, sem os questionar ou zzu…rrar.



Acontece que numa determinada região deste nosso lindo (…), heróico e intrigante Portugal, o dito autarca tinha uma grande e próspera propriedade junto à praia com maravilhosas e invejáveis vistas para o mar e a imensidão do oceano.

Nela, o burro pastava e zurrava livre e alegremente perante o olhar pasmado e estupefacto do dono e de todos os vizinhos, que o admiravam pela sua postura, rectidão e sossego. Muitas vezes provocado a desacatos por intrusos indesejáveis, reagia com passiva e admirável serenidade.




Não tendo o autarca, devido às suas longas e opiperas reuniões e outras tarefas adjacentes à sua função e responsabilidade, tempo e disponibilidade para a modernização e rentabilização da quinta, decidiu então, depois de consultar a sua provecta e senil família, colocá-la à venda.



Surgiram de imediato inúmeros interessados, mas nem todos reuniam as condições exigidas. Após exausta e ponderada reflexão e de criteriosa selecção dos interessados, o autarca decide vendê-la ao primo da prima do primo. Foi deveras uma decisão difícil, dado que ela lhe tinha calhado numa herança de entes afastados.

Negócio fechado.


O primo da prima do primo, depois de tirar umas dúvidas na capital e consultar agentes da especialidade, decide avançar na construção imobiliária. Aquilo de que era proprietário deixou de o ser, ficou para outro com muita pena da sua bela e elegantíssima mulher.

Construídos os prédios em extensão e em altura, praticamente aquilo que era uma quinta e paraíso do burro, deixou de o ser para ser o paraíso de…de…de… e para tristeza e desencanto do asino e de todos os que o admiravam e ouviam. Até os vizinhos estranharam tal deformação arquitectónica.

O que antes alimentava e seduzia o burro deixa agora de o apaixonar ao ponto de nas redondezas nunca mais se ouvir o eco do animal.

Todos os dias a população olhava saudosa e tristemente para o local da antiga quinta, mas infelizmente não via, não ouvia o burro nem a praia nem o mar!

Apenas diziam baixinho entre si e entre dentes:

- Aquela quinta era do burro do autarca! 

                                           

Joaquim Afonso



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