Crónicas e Reflexões

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Algarvios negociam a torneira de D. Afonso Henriques



Os Algarvios negociam a torneira de D. Afonso Henriques
(a mangueira…)





Parece incrível, mas segundo os meios de comunicação social (mass- media) nacionais e internacionais, tanto escritos como falados e todas as agências noticiosas dignas de crédito jornalístico em Portugal e até o veículo mais moderno e rápido de difusão, a internet, o rectângulo algarvio desde a ponta de Sagres até Vila Real de S. António apressa-se a negociar com sua majestade, o Rei Conquistador ou sua alteza real, uma torneira valiosa e muito especial no reino, guardada a sete chaves de ouro bruto num cofre de marfim trazido das bandas do Norte de África ou das terras D´Além e D´Aquém, algures escondida em serranias, lagoas ou falésias extintas no espaço circundante e isto desde o seu duvidoso e inesperado desaparecimento após a sangrenta e mortífera batalha travada contra os infiéis, traidores, contestatários e rebeldes monárquicos e azar dos azares, numa noite de bruma e intenso nevoeiro. 


Estas notícias têm sido objecto de milhentos comentários diversos, assaz animados de acesa e aguerrida polémica entre os algarvios naturais, quer nas ruas, cafés mais conhecidos das redondezas e entre as populações mais rurais e mais afastadas dos grandes burgos e como estamos em plena época estival e por contágio lógico e crescente (somos todos portugueses e genuinamente lusitanos de Viriato, veraneantes sortudos, cuja cara e pé descalço não finge a crise), sobretudo do Norte de Portugal, das ilhas e também do estrangeiro, nomeadamente britânicos, franceses e hermanos espanhóis bem como muitos brasileiros, que todos os anos rumam a outras paragens como aves migratórias famintas de aventura e utopias e esta região de Portugal é ideal para usufruir do sol, praia, mar, culinária, cultura física e intelectual leve…



Nos hotéis mais requintados e afamados de quatro e cinco estrelas das principais grandes cidades, nas estalagens, casas de campo, piscinas, cafés, restaurantes e bares, sachas, kat dral (es), santuários diversos de cultos profanos e multiculturais, campos de ténis e golfe, big one , zoomarine, aquashow park, aqualand, splashparques, slide and splash, parques de campismo legais e selvagens, esquinas de rua, romarias e festivais populares de sardinha e marisco e de…, até nos hospitais e centros de saúde a braços com a  assustadora e enigmática gripe a, nas capelas, campanários mais simples e igrejas mais sumptuosas, perturbando a paz de Deus, dos santos, os sagrados rituais do culto e a figadeira e vísceras do clero, bem como  nas praias durante os banhos e mergulhos, afectando a calmaria e o lazer dos peixinhos  curiosamente atrevidos e distraídos e sobretudo os nadadores-salvadores que não param de deitar baldes e baldes  e extensas mangueiradas de água fresca à acesa fogueira marítima privando as inocentes, puras, indefesas, mimadas, indiferentes e bem untadas de areia as criancinhas de mil brincadeiras, diabruras e cambalhotas, pois  os acompanhantes alheados da realidade  pais, avós muito carinhosos e permissivos ou tutores , não têm tempo para lhes ligar e dar atenção, tal é o poder investido na discussão travada, que se sentem desamparadas e perdidas na areia e na água e nos pequenos lagos feitos com pretenso engenho e arte. Prenúncio, sem dúvida, nascente de vocações aspirantes a engenheiros náuticos e outros…sabe-se lá… O assunto é tão badalado e apregoado, que parece um tsunami gigante, causando muito pânico e alarido colectivo e bastante mal-estar na vizinhança, habituada a uma vida rural pacata e sossegada e em todos os comerciantes, habitantes sazonais, veraneantes e estrangeiros e tudo isso, por causa de uma torneira misteriosa que segundo algumas pessoas do povo mais simples, mais ligado à terra e às tradições ancestrais, mas dotado de grande sabedoria, dizem, que é uma torneira milagrosa.



Imaginem, vocês, se fossem várias torneiras…

O comando nacional e provincial da protecção civil está em alerta amarelo, transitando constantemente e de acordo com as informações amiúde divulgadas pela rádio, televisão e outros meios adequados, dependendo das horas do dia e da noite, em alerta vermelho vivo. Até a sirene dos bombeiros está constantemente a berrar, incomodando  ligeiramente todas as populações, veraneantes e atrevidamente a cesta do Sr. Presidente, que já foi da nossa República. A própria PSP, a GNR andam em constante rodopio pelas vilas e cidades, a guarda – florestal a braços com os fogos faz portagens nas montanhas, aconselhando os automobilistas a poupar gasolina e gasóleo, a utilizar veículos de duas rodas menos poluentes e mais económicos, vendo-se, no entanto, aqui e ali, já alguns desacatos e muitos carros bloqueados em ruas de grande movimentação pedestre, rodoviário e ferroviário.


Imaginem só… O Parlamento gozando de merecidíssimas férias está prestes a reunir de emergência, alguns até já foram convocados via satélite e GPS, mas há um pequeno senão, o presidente muito ocupado ou também de férias, não sabe onde se encontram os deputados, secretários e assessores… Alguém terá dito e a fonte é fidedigna, não duvidem…em aparte, claro, que estavam muito preocupados neste momento e nesta altura com as suas férias e das famílias e amigas e que as causas urgentes e nobres ficariam para depois…


Mas, os algarvios preocupados com tantos problemas que os irritam, e de que mais se queixam, nomeadamente a monocultura do turismo, centros históricos vazios, recorde de desemprego, desertificação do interior, centralismo, portos de pesca, trânsito caótico, falta de bom ambiente, transportes públicos lentos e escassos, insegurança crescente, ainda têm mais este problemas para resolver. Portanto, imaginem as preocupações das autoridades incumbidas de zelar pelo bem-estar dos cidadãos. Sim, porque nós não estamos no tempo do rei… Creio que estas ainda não estão de férias…porque se tal acontecesse já se tinha despoletado uma guerra civil, não com espadas como antigamente, apesar de existiram muitas nos inúmeros museus com vontade de se desenferrujarem ou como no tempo dos afonsinos guerreiros, mas à pistolada, facada, tesourada, paulada, murada e outras artes, provavelmente utilizando-se em última instância todos os adereços que adornam um bom prato de peixe ou carne.


Ciente desta avalanche de problemas e em férias e longe da minha terrinha natal, da qual ainda mantenho uma razoável memória, mais pacífica e ordeira, resolvi não por cobardia, mas por prevenção abandonar com a minha família e amigos, rapidamente este local de veraneio, que por sinal é muito tórrido e agradável.

Recebi em sonhos esta mensagem: - Levanta-te e toma a tua carrocinha, antes que seja tarde! Dirige - te para local seguro e mais húmido, pois a tua pele de sapo, precisa doutro clima! Caso contrário, estás sujeito a sofrer grandes queimaduras e não tens bombeiro que te apague o fogo.


O veraneante cumpriu integralmente a intenção da mensagem e está neste preciso momento a dirigir-se para local seguro e secreto. No caminho ouvindo a rádio e parando em algumas estações para ver a televisão, verificava que a situação estava cada vez mais quente, os conflitos tinham aumentado e a guerra não desejada estava cada vez mais civil e iminente.


Todo o reino está preocupado, os países vizinhos em mensagens substantivas e cordiais manifestam a sua grande preocupação por este pedacinho tão bonito e agradável de Portugal. Algumas vozes, talvez as da desgraça, dizem animadamente e com ironia que tudo isto foi por causa do negócio da torneira de D. Afonso Henriques. Outros, mais ligados às tradições do passado, dizem que, afinal, o que eles precisam, neste momento tão insólito, não é da torneira, pois torneiras há muitas nas drogarias, seu palerma, precisam sim, mas é de uma espada bem afiada de dois gumes.


Joaquim Afonso