Os Algarvios negociam a torneira de D. Afonso Henriques
(a mangueira…)
Estas
notícias têm sido objecto de milhentos comentários diversos, assaz animados de
acesa e aguerrida polémica entre os algarvios naturais, quer nas ruas, cafés
mais conhecidos das redondezas e entre as populações mais rurais e mais
afastadas dos grandes burgos e como estamos em plena época estival e por contágio
lógico e crescente (somos todos portugueses e genuinamente lusitanos
de Viriato, veraneantes sortudos, cuja cara e pé descalço não finge a crise),
sobretudo do Norte de Portugal, das ilhas e também do estrangeiro, nomeadamente
britânicos, franceses e hermanos
espanhóis bem como muitos brasileiros, que todos os anos rumam a outras
paragens como aves migratórias famintas de aventura e utopias e esta região de
Portugal é ideal para usufruir do sol, praia, mar, culinária, cultura física e
intelectual leve…
Nos
hotéis mais requintados e afamados de quatro e cinco estrelas das principais
grandes cidades, nas estalagens, casas de campo, piscinas, cafés, restaurantes
e bares, sachas, kat dral (es), santuários diversos de cultos profanos e
multiculturais, campos de ténis e golfe, big one , zoomarine, aquashow park,
aqualand, splashparques, slide and splash, parques de campismo legais e
selvagens, esquinas de rua, romarias e festivais populares de sardinha e
marisco e de…, até nos hospitais e centros de saúde a braços com a assustadora e enigmática gripe a, nas
capelas, campanários mais simples e igrejas mais sumptuosas, perturbando a paz
de Deus, dos santos, os sagrados rituais do culto e a figadeira e vísceras do
clero, bem como nas praias durante os
banhos e mergulhos, afectando a calmaria e o lazer dos peixinhos curiosamente atrevidos e distraídos e
sobretudo os nadadores-salvadores que não param de deitar baldes e baldes e extensas mangueiradas de água fresca à
acesa fogueira marítima privando as inocentes, puras, indefesas, mimadas,
indiferentes e bem untadas de areia as criancinhas de mil brincadeiras,
diabruras e cambalhotas, pois os
acompanhantes alheados da realidade
pais, avós muito carinhosos e permissivos ou tutores , não têm tempo
para lhes ligar e dar atenção, tal é o poder investido na discussão travada,
que se sentem desamparadas e perdidas na areia e na água e nos pequenos lagos
feitos com pretenso engenho e arte. Prenúncio, sem dúvida, nascente de vocações
aspirantes a engenheiros náuticos e outros…sabe-se lá… O assunto é tão badalado
e apregoado, que parece um tsunami gigante, causando muito pânico e alarido
colectivo e bastante mal-estar na vizinhança, habituada a uma vida rural pacata
e sossegada e em todos os comerciantes, habitantes sazonais, veraneantes e
estrangeiros e tudo isso, por causa de uma torneira misteriosa que segundo
algumas pessoas do povo mais simples, mais ligado à terra e às tradições
ancestrais, mas dotado de grande sabedoria, dizem, que é uma torneira
milagrosa.
Imaginem,
vocês, se fossem várias torneiras…
O comando
nacional e provincial da protecção civil está em alerta amarelo, transitando
constantemente e de acordo com as informações amiúde divulgadas pela rádio,
televisão e outros meios adequados, dependendo das horas do dia e da noite, em
alerta vermelho vivo. Até a sirene dos bombeiros está constantemente a berrar, incomodando ligeiramente todas as populações, veraneantes
e atrevidamente a cesta do Sr. Presidente, que já foi da nossa República. A
própria PSP, a GNR andam em constante rodopio pelas vilas e cidades, a guarda –
florestal a braços com os fogos faz portagens nas montanhas, aconselhando os
automobilistas a poupar gasolina e gasóleo, a utilizar veículos de duas rodas
menos poluentes e mais económicos, vendo-se, no entanto, aqui e ali, já alguns
desacatos e muitos carros bloqueados em ruas de grande movimentação pedestre,
rodoviário e ferroviário.
Imaginem só… O Parlamento gozando de
merecidíssimas férias está prestes a reunir de emergência, alguns até já foram
convocados via satélite e GPS, mas há um pequeno senão, o presidente muito
ocupado ou também de férias, não sabe onde se encontram os deputados,
secretários e assessores… Alguém terá dito e a fonte é fidedigna, não
duvidem…em aparte, claro, que estavam muito preocupados neste momento e nesta
altura com as suas férias e das famílias e amigas e que as causas urgentes e
nobres ficariam para depois…
Mas, os
algarvios preocupados com tantos problemas que os irritam, e de que mais se
queixam, nomeadamente a monocultura do turismo, centros históricos vazios,
recorde de desemprego, desertificação do interior, centralismo, portos de
pesca, trânsito caótico, falta de bom ambiente, transportes públicos lentos e
escassos, insegurança crescente, ainda têm mais este problemas para resolver.
Portanto, imaginem as preocupações das autoridades incumbidas de zelar pelo
bem-estar dos cidadãos. Sim, porque nós não estamos no tempo do rei… Creio que
estas ainda não estão de férias…porque se tal acontecesse já se tinha despoletado
uma guerra civil, não com espadas como antigamente, apesar de existiram muitas
nos inúmeros museus com vontade de se desenferrujarem ou como no tempo dos
afonsinos guerreiros, mas à pistolada, facada, tesourada, paulada, murada e
outras artes, provavelmente utilizando-se em última instância todos os adereços
que adornam um bom prato de peixe ou carne.
Ciente
desta avalanche de problemas e em férias e longe da minha terrinha natal, da
qual ainda mantenho uma razoável memória, mais pacífica e ordeira, resolvi não
por cobardia, mas por prevenção abandonar com a minha família e amigos,
rapidamente este local de veraneio, que por sinal é muito tórrido e agradável.
Recebi em
sonhos esta mensagem: - Levanta-te e toma a tua carrocinha, antes que seja
tarde! Dirige - te para local seguro e mais húmido, pois a tua pele de sapo,
precisa doutro clima! Caso contrário, estás sujeito a sofrer grandes
queimaduras e não tens bombeiro que te apague o fogo.
O
veraneante cumpriu integralmente a intenção da mensagem e está neste preciso
momento a dirigir-se para local seguro e secreto. No caminho ouvindo a rádio e
parando em algumas estações para ver a televisão, verificava que a situação
estava cada vez mais quente, os conflitos tinham aumentado e a guerra não
desejada estava cada vez mais civil e iminente.
Todo o
reino está preocupado, os países vizinhos em mensagens substantivas e cordiais
manifestam a sua grande preocupação por este pedacinho tão bonito e agradável
de Portugal. Algumas vozes, talvez as da desgraça, dizem animadamente e com
ironia que tudo isto foi por causa do negócio da torneira de D. Afonso
Henriques. Outros, mais ligados às tradições do passado, dizem que, afinal, o
que eles precisam, neste momento tão insólito, não é da torneira, pois
torneiras há muitas nas drogarias, seu palerma, precisam sim, mas é de uma
espada bem afiada de dois gumes.
Joaquim Afonso

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