Crónicas e Reflexões

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A ROSA DAS TULIPAS




A ROSA DAS TULIPAS
ou
(a canastra do Canastro)



Deriva do Latim rosa, rosae e do Grego rhodon, rosa.


ROSA
Do latim Rosa, nome de uma flor. Alguns atribuem a origem ao germânico Hrod, glória.

ROSA
Grego, significa a flor, a rosa. Nome de pessoa que, em cada circunstância da sua vida, sabe valorizar o que lhe convém. Quase sempre acerta ao escolher as suas amizades e a profissão. No entanto, fogem da monotonia: gostam de arranjar novos amigos ou mudar de trabalho.




Faz parte do nosso património religioso e cultural a mentira piedosa que a Rainha D. Isabel pregou ao seu marido, El-Rei D. Dinis. Uma lenda que sempre entusiasma quem a ouve.
Vem isto a propósito ou a despropósito das tulipas da Rosa, bem e certeiramente rematadas na baliza algures na linda e turística cidade de Espinho. Grande atleta e maratonista sempre à espera de novas oportunidades e grandes desafios.
Conta a lenda que, um dia, estava a rainha santa Isabel com as suas aias rodeada de vários pobres. Seu marido, o rei D. Dinis, aproximou-se e perguntou:
-Que tendes vós aí ?
E a rainha respondeu:
-São rosas, senhor, são rosas!
E do seu colo caíram rosas conforme a rainha dissera.
Foi assim que ficou conhecido o milagre das rosas, pois o pão que a rainha trouxera e distribuía transformara-se em belas rosas.
É esta a lenda que ilustra a santidade desta rainha e a sua mensagem de amor ao próximo.





Mas, não me vou armar em pitonisa grega, no distante e turbulento oráculo de Delfos ou em atleta sem pista, nem pretendo incomodar com fastidiosas etimologias e erudições semânticas, não senhor, intrometer-me levianamente no teu labirinto interior. Também não vou falar de O Nome da Rosa (Il nome della rosa), romance do escritor Umberto Eco, lançado em 1980 e conhecido mundialmente.

E, nem tão pouco, valha-me Deus, da famosa Rosa dos Ventos, do real milagre das rosas, rosa do adro, rosa fogo, do mapa de cor-de-rosa, da rosa vermelha (amor, paixão, respeito, coragem, beleza e prosperidade...), do botão de rosa e da roseira brava, dos jardins de rosas, do que falam e cantam, as rosas, enfim, dos famosos trechos de Garrett, Vinicius, Pessoa e Camões...mas para aperitivo e incipiente enfeite da tua canastrinha seleccionei algumas pétalas dispersas pela matizada e rústica urbe e assaz multicolores...que sinto bem odorizadas, neste tempo, para o teu exigente e artístico olfacto.

A rosa
É formosa;
Bem sei.
Porque lhe chamam - flor
D'amor,
Não sei.

A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma - dor
Na cor
O lírio.

Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa,
Se é de beleza - mor
Primor
A rosa,

No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: cor
E ardor
É o meu.

A rosa
É formosa,
Bem sei ...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.


In Folhas Caídas, Almeida Garrett



Rosa sem Espinhos

 Para todos tens carinhos,
A ninguém mostras rigor!
Que rosa és tu sem espinhos?
Ai, que não te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa
A desdém te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
É sorrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,
Tão modesta em seu zumbir,
Te diz: «Ó rosa vermelha,
Bem me podes acudir:

Deixa do cálix divino
Uma gota só libar...
 Deixa, é néctar peregrino,
Mel que eu não sei fabricar...»

Tu de lástima rendida,
De maldita compaixão,
Tu à súplica atrevida
Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
És rosa e não tens espinhos!
Ai! que não te entendo, flor.

In Folhas Caídas,
Almeida Garrett


Rosa Pálida

Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim...quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos Céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.


E vergonha!...de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê? …porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zângão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.

Ai! deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh! quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.

  In Folhas Caídas,
Almeida Garrett



Flor de Ventura

A flor de ventura
Que amor me entregou,
Tão bela e tão pura
Jamais a criou:

Não brota na selva
De inculto vigor,
Não cresce entre a relva
De virgem frescor;

Jardins de cultura
Não pode habitar
A flor de ventura
Que amor me quis dar.

Semente é divina
Que veio dos Céus;
Só n’alma germina
Ao sopro de Deus.

Tão alva e mimosa
Não há outra flor;
Uns longes de rosa
Lhe avivam a cor;

E o aroma... Ai! delírio
Suave e sem fim!
É a rosa, é o lírio,
É o nardo, o jasmim;

É um filtro que apura,
Que exalta o viver,
E em doce tortura
Faz de ânsias morrer.

Ai! morrer… que sorte
Bendita de amor!
Que me leve a morte
Beijando-te, flor.

In 'Folhas Caídas,
Almeida Garrett




Entre as prendas com que a natureza
Alegrou este mundo onde há tanta tristeza
A beleza das flores realça em primeiro lugar
É um milagre do aroma florido
Mais lindo que todas as graças do céu
E até mesmo do mar
Olhem bem para a rosa
Não há mais formosa
É flor dos amantes
É rosa-mulher
Que em perfume e em nobreza
Vem antes do cravo
E do lírio e da Hortência
E da dália e do bom crisântemo
E até mesmo do puro e gentil malmequer
E reparem no cravo o escravo da rosa
Que é flor mais cheirosa
De enfeite subtil
E no lírio que causa o delírio da rosa
O martírio da alma da rosa
Que é a flor mais vaidosa e mais prosa
Entre as flores do nosso Brasil
Abram alas pra dália garbosa
Da cor mais vistosa
Do grande jardim da existência das flores
Tão cheias de cores gentis
E também para a Hortência inocente
A flor mais contente
No azul do seu corpo macio e feliz
Satisfeita da vida
Vem a margarida
Que é a flor preferida dos que tem paixão
E agora é a vez da papoula vermelha
A que dá tanto mel prás abelhas
E alegra este mundo tão triste
No amor que é o meu coração
E agora que temos o bom crisântemo
Seu nome cantemos em verso e em prosa
Porém que não tem a beleza da rosa
Que uma rosa não é só uma flor
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa
É a mulher rescendendo de amor

In Vinicius de Moraes



…..

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Excepto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.
Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também.

In Fernando Pessoa, Álvaro de Campos


As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inconscientes, Lídia, voluntariamente
Que à noite antes e após
O pouco que duramos.

In Poesia de Ricardo Reis


 Coroai-me de rosas

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

In Ricardo Reis



Tantas e tão variadas rosas colhidas com carinho nos díspares jardins, mas insuficientes prá dimensão e beleza da tua canastra. Sim, porque apesar de muitas, belas e matizadas a brilhar na tua canastrinha ainda tens lugar para outras belas e muitas no teu canastro!

Apetece-me, atrevidamente, parafrasear uma das canções tradicionais presentes no Cancioneiro Popular Português:

Ó Rosinha, ó Rosinha do meio,
vem comigo malhar o centeio.
O centeio, o centeio, a cevada,
      Ó Rosinha  minha namorada...???

Que ousadia, meu Deus!
Bem, por este caminho vais perder o pendular, farto de apitar no túnel à tua espera!





Joaquim Afonso

Sem comentários:

Enviar um comentário