Crónicas e Reflexões

quarta-feira, 14 de maio de 2014

ROSTO HUMANO OU DESUMANA CRISE?






ROSTO HUMANO OU DESUMANA CRISE?





Encontrava-se algures à porta d´entrada duma grande superfície, muito e doridamente sozinho, balbuciando com os queixos semicerrados e gesticulando algo imperceptível enquanto o fumo ondulante do cigarro lhe escapava por entre os dedos já bastante coloridos e lhe apoquentava os olhos pretos e pestanas longas, coçando lentamente as orelhas e a barba mais branca que preta com o polegar dobrado e as mãos calejadas, olhava à distância para os carros e motas estacionadas no parque a descoberto e de vez em quando lateralmente de soslaio para duas jovens bastante esqueléticas, mas bem - dispostas meninas, suspeitando talvez dos olhares atrevidos e curiosos dos que entravam e saíam à pressa com sacos e carrinhos cheios de sonhos e miragens parecendo abelhas e abelhões zumbindo à entrada e saída dos cortiços ou colmeias sem chefe ou abelha mestra.

O seu surpreendente e enigmático olhar sisudo para não dizer esfíngico quereria adivinhar qualquer coisa incógnita no meio daquele grande portal automático de entradas e saídas vertiginosas e por vezes trôpegas e ofegantes.

Tal figura singular e estática transportou-me não em sacos e saquinhos, carros e carrinhos, máquinas voadoras ou tapetes mais ou menos rolantes para o tempo das minhas memórias antigas e bem localizadas.

E, não é que de repente não sei se com ou sem paraquedas aterro na terra dessas memórias longínquas que me trouxeram ao consciente dois rostos simples e originais do lugar de Cimo de Vila, da freguesia em Serafão.

Conheci-os, eram dois irmãos, casados e sempre residentes, creio, no dito lugar, pedreiros de profissão que todos os dias de manhã até à noite, em tempo propício para a jornada se dedicavam a remendar, consertar e erguer socalcos caídos e dispersos em terrenos acremente agrícolas ou não e desmoronados e arruinados nos duros invernos pelas condições climatéricas adversas e também talhar a pedra rude a pico, martelo e cinzel para a construção de casas e telheiros.

Sempre os conheci como homens simples de bondade e engenho excepcional. Não para a construção de monumentos artísticos ou bustos de personagens de renome e fama nacional nem tão pouco aurélia e pedestais de santos ou santas pouco ou nada milagreiros em tempos de crise apesar da altura destacada e estrategicamente distantes da arraia miúda, são beatos e beatas eleitos por alguns pios e infalíveis senhores e olhando constantemente mais para o céu que para a terra dos homens e diga-se, até bispos ou arcebispos da bracara augusta ou outros santuários de devoção, mas para aquilo de que eram dotados e experientes com ardor, audácia e tenacidade.

Grandes e anónimos homens!

Vê-los trabalhar e modelar a informe pedra e pedregulhos teimosos e havia cada um mais caricato e disforme, era admirável e encantador.
As suas mãos e dedos calejados pelas fortes marteladas quotidianas, rudes e agrestes calhaus suscitavam curiosidade a quem os observava ao passar e os cumprimentava aqui e ali com palavras ou acenos de cabeça ou mãos.
Se a memória não me atraiçoa chamavam-se António e José Viegas.

De joelhos ou cócoras, curvados ou de pé, colocando pedra sobre pedra no arruinado e espalhafatoso socalco lá ia paulatinamente atingindo a sua verdadeira dimensão em altura e largura.
Muitas vezes aqueles martelos e martelões de ferro às voltas com pedregulhos de maior teimosia e irreverência, indevida e distraidamente faziam as suas marotices desviando-se da rota e local traçado, indo ferir os já doridos dedos e mãos dos artífices.

Pressentiam-se e ouviam-se às vezes pequenos e guturais gemidos e algumas pragas ao vento, mas os santos e sobretudo o padroeiro da terra, um pouco distante dos locais da azafama e talvez um pouco surdos de tantos e dolorosos lamentos ao longo dos tempos, já os não ouvia ou fazia que não ouvia, dizem algumas pessoas…

E toca a engendrar novamente como bom artista a resolução da situação.

Recordo-me, quando eles trabalhavam nalgumas propriedades da minha família e outras propriedades dos vizinhos de lhes ir levar a merenda, bebidas e oferecer uns molhitos de cigarros enrolados e de cabeça atada e achatada, comprados na venda ou tasca do senhor António Cancela de Cimo de Vila e talvez de os colocar e acender nos lábios, pois as suas mãos estavam tão sujas e ásperas que os próprios dedos bruscamente os rejeitavam, ficando um que outro sepultado e enterrado para memória futura.

Não sei se indevida, leviana e muito prematuramente e às escondidas dos meus pais e outros trabalhadores sazonais lhes roubava algumas passas para não dizer os curtos e desajeitados cigarritos.
Eram tempos de crise como estes tempos da modernidade e tudo se aproveitava para minorar a dor e alegrar a vida!

Estes rostos singulares e outros anónimos ficaram para sempre na minha memória!

Há memórias felizes!

Oh, ai, ó lindo!



Joaquim Afonso

 

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