ROSTO HUMANO OU DESUMANA CRISE?
Encontrava-se algures à porta d´entrada duma
grande superfície, muito e doridamente sozinho, balbuciando com os queixos
semicerrados e gesticulando algo imperceptível enquanto o fumo ondulante do
cigarro lhe escapava por entre os dedos já bastante coloridos e lhe apoquentava
os olhos pretos e pestanas longas, coçando lentamente as orelhas e a barba mais
branca que preta com o polegar dobrado e as mãos calejadas, olhava à distância
para os carros e motas estacionadas no parque a descoberto e de vez em quando
lateralmente de soslaio para duas jovens bastante esqueléticas, mas bem -
dispostas meninas, suspeitando talvez dos olhares atrevidos e curiosos dos que
entravam e saíam à pressa com sacos e carrinhos cheios de sonhos e miragens
parecendo abelhas e abelhões zumbindo à entrada e saída dos cortiços ou
colmeias sem chefe ou abelha mestra.
O seu surpreendente e enigmático olhar sisudo
para não dizer esfíngico quereria adivinhar qualquer coisa incógnita no meio
daquele grande portal automático de entradas e saídas vertiginosas e por vezes
trôpegas e ofegantes.
Tal figura singular e estática transportou-me
não em sacos e saquinhos, carros e carrinhos, máquinas voadoras ou tapetes mais
ou menos rolantes para o tempo das minhas memórias antigas e bem localizadas.
E, não é que de repente não sei se com ou sem
paraquedas aterro na terra dessas memórias longínquas que me trouxeram ao
consciente dois rostos simples e originais do lugar de Cimo de Vila, da
freguesia em Serafão.
Conheci-os, eram dois irmãos, casados e sempre
residentes, creio, no dito lugar, pedreiros de profissão que todos os dias de
manhã até à noite, em tempo propício para a jornada se dedicavam a remendar,
consertar e erguer socalcos caídos e dispersos em terrenos acremente agrícolas
ou não e desmoronados e arruinados nos duros invernos pelas condições
climatéricas adversas e também talhar a pedra rude a pico, martelo e cinzel
para a construção de casas e telheiros.
Sempre os conheci como homens simples de bondade
e engenho excepcional. Não para a construção de monumentos artísticos ou bustos
de personagens de renome e fama nacional nem tão pouco aurélia e pedestais de
santos ou santas pouco ou nada milagreiros em tempos de crise apesar da altura
destacada e estrategicamente distantes da arraia miúda, são beatos e beatas
eleitos por alguns pios e infalíveis senhores e olhando constantemente mais
para o céu que para a terra dos homens e diga-se, até bispos ou arcebispos da
bracara augusta ou outros santuários de devoção, mas para aquilo de que eram
dotados e experientes com ardor, audácia e tenacidade.
Grandes e anónimos homens!
Vê-los trabalhar e modelar a informe pedra e
pedregulhos teimosos e havia cada um mais caricato e disforme, era admirável e
encantador.
As suas mãos e dedos calejados pelas fortes
marteladas quotidianas, rudes e agrestes calhaus suscitavam curiosidade a quem
os observava ao passar e os cumprimentava aqui e ali com palavras ou acenos de
cabeça ou mãos.
Se a memória não me atraiçoa chamavam-se
António e José Viegas.
De joelhos ou cócoras, curvados ou de pé,
colocando pedra sobre pedra no arruinado e espalhafatoso socalco lá ia
paulatinamente atingindo a sua verdadeira dimensão em altura e largura.
Muitas vezes aqueles martelos e martelões de
ferro às voltas com pedregulhos de maior teimosia e irreverência, indevida e
distraidamente faziam as suas marotices desviando-se da rota e local traçado,
indo ferir os já doridos dedos e mãos dos artífices.
Pressentiam-se e ouviam-se às vezes pequenos e
guturais gemidos e algumas pragas ao vento, mas os santos e sobretudo o
padroeiro da terra, um pouco distante dos locais da azafama e talvez um pouco
surdos de tantos e dolorosos lamentos ao longo dos tempos, já os não ouvia ou
fazia que não ouvia, dizem algumas pessoas…
E toca a engendrar novamente como bom artista
a resolução da situação.
Recordo-me, quando eles trabalhavam nalgumas
propriedades da minha família e outras propriedades dos vizinhos de lhes ir
levar a merenda, bebidas e oferecer uns molhitos de cigarros enrolados e de
cabeça atada e achatada, comprados na venda ou tasca do senhor António Cancela
de Cimo de Vila e talvez de os colocar e acender nos lábios, pois as suas mãos
estavam tão sujas e ásperas que os próprios dedos bruscamente os rejeitavam,
ficando um que outro sepultado e enterrado para memória futura.
Não sei se indevida, leviana e muito
prematuramente e às escondidas dos meus pais e outros trabalhadores sazonais
lhes roubava algumas passas para não dizer os curtos e desajeitados cigarritos.
Eram tempos de crise como estes tempos da
modernidade e tudo se aproveitava para minorar a dor e alegrar a vida!
Estes rostos singulares e outros anónimos
ficaram para sempre na minha memória!
Há memórias felizes!
Oh, ai, ó lindo!
Joaquim Afonso
Sem comentários:
Enviar um comentário