Crónicas e Reflexões

terça-feira, 13 de maio de 2014

OS PIMENTOS AFONSINOS








OS PIMENTOS AFONSINOS


Peço desculpa, mas estes são dos vizinhos...!

Não vos vou falar da Quinta de Santo Inácio, dos pimentos  e roçados tomates do Padre Inácio nem da horta ou quintal ressequido dos meus vizinhos ou das pencas e repolhos da Feira de Espinho, pigmentos ou pigmaleões, kyvis de S. João de Vêr, e há tantos situados nas traseiras da minha e nossa casa, digo, do meu modesto habitáculo.

Tamen das abóboras viçosas e rechonchudas da horta do Zé Gonçalves, maçãs do quintal do Fernando Araújo, pepininhos do Agostinho Vaz, laranjas, camélias e farófias do António Colaço, azeitonas e broa do João Teixeira, figos de burro e do diabo do Firmino, morangos e pimentos do Agostinho Mendes, uvas de colhões  do Carlos Rito, alcachofras, espinafres e marmelos já muito murchos da Feira, do Zé das couves e hortaliças ou propriamente de melões sem pimenta de Almeirim.


Este tempo, ainda no início, propício ao devaneio hortícola, pois no ar assiduamente movimentam-se ruídos dos malhos e cantares à desgarrada, aromas das desfolhadas, vindimas, trepidar de castanhas assadas sem bicho de ceda e colheitas várias, mas também odores desprezíveis aqui e ali, oriundos de parte incerta, para já não falar do fumo das chaminés das fábricas e casas, bem como a poluição rodoviária e política.

As recentes chuvas e os previsíveis aguaceiros
.adivinhados pelos magos meteorologista amenizaram a atmosfera negra e sombria circundante, ficando o ar mais respirável e menos pesado.

É a natureza!

-Mas, que maravilha de pimentos e alguns coloridos – exclamou o anónimo de passagem.
São pimentos, são. Mas, não são os do P. Pimentinha! São pimentos da horta, meu senhor!
O feminino de pimento diz o dicionário é a pimenta. Mas, a pimenta para além de ser utilizada como especiaria na arte da culinária, poderia ser tão bem utilizada na República Portuguesa, talvez no Parlamento e Assembleia da República ou outros centros de interesse e debate político. Servida na língua em doses recomendáveis conforme o termómetro acústico e verborreico dos deputados ou outra parte do efémero corpo.
Substituiria as incansáveis e diligentes chamadas de atenção da presidente que assim teria mais tempo para zelar da sua estética capilar e corporal. Os nossos históricos, dispersos e desavindos políticos no activo ou não e outros de miragens e arco-íris exóticos que povoam as praças nacionais e internacionais dos tempos sentir-se-iam provavelmente mais férteis e felizes com este adoçante saudável e longivo. É apenas uma singela e provinciana ideia…
As beneméritas criaturas da arte de bem esbanjar e bem enriquecer patética e tiranamente também deviam ser dignos deste heroísmo fraudulento e como diz o escritor António Lobo Antunes, na sua crónica de 5 de Abril de 2012, na revista Visão, deveriam merecer lugar de destaque nesta “ Nação valente e imortal” ou por outras palavras, nesta República de pernas pró ar.

As pensões vitalícias de alguns figurões, os privilégios e mordomias indecentes, os subsídios de luxo de alguns diplomatas, a promiscuidade dos tachos, os saqueadores da arca quase perdida, a ementa da Assembleia da República, alguns criminosos de renome badalado e mixordado também deveriam experimentar o tal adoçante, para bem da sua saúde e dos seus pares.

Não querem experimentar! “O que é nacional é bom”!
Não vou ao exagero de colocar pimenta na língua de Camões, Fernão Lopes, Cristóvão Colombo, Herculano, Eça, Garrett, Gedeão, Sophia, Agustina, Pessoa, Saramago, António Pina (de boa memória…) não senhor, mas também não estou de acordo em colocar outros heroizinhos da praça e da desgraça em monumentos distintos e emblemáticos, destronando-os dos seus enraizados e esverdeados aposentos, machucando a nossa identidade e ainda por cima ou por baixo onde passam muitos transeuntes e turistas estrangeiros, que vergonha! Valha-nos a ironia!

Colocar Sócrates ao lado do seu homónimo grego, no areópago, Torre de Belém ou Batalha, Vale e Azevedo nos Jerónimos, Loureiro no Panteão, Jorge Coelho no Mosteiro de Alcobaça, Armando Vara no dia de Camões, Mexia no Terreiro do Paço destronando D. José, Oliveira e Costa na pedinchice…etc…
Não vamos fazer ressuscitar os mortos! Estátuas equestres para todos e veneração nacional!
Não…não e não…!
Deixem loucamente que os processos importantes em tribunal fatalmente prescrevam!
E a pimenta? Os pimentos?
Pimenta há muita nas drogarias, mas pimentos só na feira e na horta!

 


 
Mas, que mistela e indigestiva salada! Uf! Misturem com limão!



 
  


Oh, ai, ó lindos!


Joaquim Afonso


 

Sem comentários:

Enviar um comentário