OS PIMENTOS AFONSINOS
Peço desculpa, mas estes são dos
vizinhos...!
Não vos vou falar da Quinta de Santo Inácio,
dos pimentos e roçados tomates do Padre
Inácio nem da horta ou quintal ressequido dos meus vizinhos ou das pencas e
repolhos da Feira de Espinho, pigmentos ou pigmaleões, kyvis de S. João de Vêr,
e há tantos situados nas traseiras da minha e nossa casa, digo, do meu modesto
habitáculo.
Tamen das abóboras viçosas e rechonchudas da horta do Zé Gonçalves,
maçãs do quintal do Fernando Araújo, pepininhos do Agostinho Vaz, laranjas,
camélias e farófias do António Colaço, azeitonas e broa do João Teixeira, figos
de burro e do diabo do Firmino, morangos e pimentos do Agostinho Mendes, uvas
de colhões do Carlos Rito, alcachofras,
espinafres e marmelos já muito murchos da Feira, do Zé das couves e hortaliças
ou propriamente de melões sem pimenta de Almeirim.
Este tempo, ainda no início, propício ao devaneio hortícola, pois no ar
assiduamente movimentam-se ruídos dos malhos e cantares à desgarrada, aromas
das desfolhadas, vindimas, trepidar de castanhas assadas sem bicho de ceda e
colheitas várias, mas também odores desprezíveis aqui e ali, oriundos de parte
incerta, para já não falar do fumo das chaminés das fábricas e casas, bem como
a poluição rodoviária e política.
As recentes chuvas e os previsíveis aguaceiros
.adivinhados pelos magos meteorologista amenizaram a atmosfera negra e
sombria circundante, ficando o ar mais respirável e menos pesado.
É a natureza!
-Mas, que maravilha de pimentos e alguns coloridos – exclamou o anónimo
de passagem.
São pimentos, são. Mas, não são os do P. Pimentinha! São pimentos da
horta, meu senhor!
O feminino de pimento diz o dicionário é a pimenta. Mas, a pimenta para
além de ser utilizada como especiaria na arte da culinária, poderia ser tão bem
utilizada na República Portuguesa, talvez no Parlamento e Assembleia da
República ou outros centros de interesse e debate político. Servida na língua
em doses recomendáveis conforme o termómetro acústico e verborreico dos
deputados ou outra parte do efémero corpo.
Substituiria as incansáveis e diligentes chamadas de atenção da
presidente que assim teria mais tempo para zelar da sua estética capilar e
corporal. Os nossos históricos, dispersos e desavindos políticos no activo ou
não e outros de miragens e arco-íris exóticos que povoam as praças nacionais e
internacionais dos tempos sentir-se-iam provavelmente mais férteis e felizes
com este adoçante saudável e longivo. É apenas uma singela e provinciana ideia…
As beneméritas criaturas da arte de bem esbanjar e bem enriquecer
patética e tiranamente também deviam ser dignos deste heroísmo fraudulento e
como diz o escritor António Lobo Antunes, na sua crónica de 5 de Abril de 2012,
na revista Visão, deveriam merecer lugar de destaque nesta “ Nação valente e
imortal” ou por outras palavras, nesta República de pernas pró ar.
As pensões vitalícias de alguns figurões, os privilégios e mordomias
indecentes, os subsídios de luxo de alguns diplomatas, a promiscuidade dos
tachos, os saqueadores da arca quase perdida, a ementa da Assembleia da
República, alguns criminosos de renome badalado e mixordado também deveriam
experimentar o tal adoçante, para bem da sua saúde e dos seus pares.
Não querem experimentar! “O que é nacional é bom”!
Não vou ao exagero de colocar pimenta na língua de Camões, Fernão Lopes,
Cristóvão Colombo, Herculano, Eça, Garrett, Gedeão, Sophia, Agustina, Pessoa,
Saramago, António Pina (de boa memória…) não senhor, mas também não estou de
acordo em colocar outros heroizinhos da praça e da desgraça em monumentos
distintos e emblemáticos, destronando-os dos seus enraizados e esverdeados aposentos,
machucando a nossa identidade e ainda por cima ou por baixo onde passam muitos
transeuntes e turistas estrangeiros, que vergonha! Valha-nos a ironia!
Colocar Sócrates ao lado do seu homónimo grego, no areópago, Torre de
Belém ou Batalha, Vale e Azevedo nos Jerónimos, Loureiro no Panteão, Jorge
Coelho no Mosteiro de Alcobaça, Armando Vara no dia de Camões, Mexia no
Terreiro do Paço destronando D. José, Oliveira e Costa na pedinchice…etc…
Não vamos fazer ressuscitar os mortos! Estátuas equestres para todos e
veneração nacional!
Não…não e não…!
Deixem loucamente que os processos importantes em tribunal fatalmente
prescrevam!
E a pimenta? Os pimentos?
Pimenta há muita nas drogarias, mas pimentos só na feira e na horta!
Mas, que mistela e indigestiva salada! Uf! Misturem com limão!
Oh, ai, ó lindos!
Joaquim Afonso
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