O GALITO DE BARCELOS E A FESTA DO SENHOR DAS CRUZES
(Maio de
69)
…e a propósito do galito de Barcelos…
Preferem pitinho novo ou velhinho?
(Se, no (vinho), rumem até Barcelos, onde decorre este fim-de-semana
de Maio de 2014 a Festa Anual do Senhor das Cruzes, se velhinho procurem na feira ou algures por
aí…)
Isto de fugir às rígidas regras
estabelecidas pela mundividência medieval e posterior renascimento/classicismo
artístico e literário e demais regras do fundador (de Assis), diga-se Francisco de nome, ditadas de modo
estrangeirado e em tempo longínquo, os que obediente, talvez livre e
paradoxalmente aceitaram sem resmungar aturdidamente noite e dia, a novidade
bárbara e incipiente, irónica e pobremente noviça, à guisa da época, claro, que
em galaico-vernáculo português são tidos como pobrezinhos de pé descalço, mas
destemidos aventureiros nas nativas e limítrofes terras, uma aventura arriscada
e atrevida para o tempo e para o “saeculum”.
Aqueles seres humanos quase
desprovidos de bens e luxúria terrena e alojados na remediada, sóbria e
comprida casa de três andares e em celas ou quartos desprovidos de conforto,
adereços vistosos, mas luxuosa em austeridade para tão tenras e quase imberbes
idades, mas familiarizados paulatinamente com os usos, costumes, tradições e
rituais do quotidiano lá se iam adaptando aos afazeres profanos e sacrossantos
rituais, não como a mistura da farinha poeirenta ou pó ressequido que encobria
a miséria ou a santidade dos velhos santos guardados no já histórico sótão
referido ou outros mais expostos ao público em local de veneração, porque mais
briosos, nutridos e milagreiros, talvez mais do que as velas que os alumiavam,
mas como grãos de milho florescente.
A vida matinal era sempre uma
agradável novidade quer pela saudável azáfama no interior da casa quer pelas
quotidianas tarefas quase rotineiras, correrias para a portaria no lado
adjacente e frontal da casa, junto a uma rua de caras e aberta para a cidade, a
campainha da porta principal, sobretudo às quintas-feiras, insistentemente a
incomodar o silêncio e a clausura dos iniciáticos bem como os pacíficos animais
enjaulados em cativeiro no minúsculo quintal que ia acusando já alguma incúria
e desleixo franciscano provocando algumas mazelas nas verduras circundantes e
no viçoso nabal junto aos alicerces da igreja.
As histéricas gritarias nos
jardins exteriores e ruas adjacentes cheias de alguma porcaria e excrementosos
odores de animais vadios e outros, perdão, muita trampa e muita merda bem como dejectos
de animais domésticos básicos e outros mais graúdos, diga-se, que vinham
passear até à cidade e feira do gado, talvez como turistas semanais ou escravos
dos seus próprios donos para fins duvidosos, enfim, vida e laboração das
fumegantes chaminés para a produção das esfíngicas fábricas.
Os nossos encontros diários
pautados pela oração ao criador e hinos de glória ao fundador, ordem e
disciplina transformavam os nossos verdes corações num matiz inebriante e o seu
éter contaminava a casa, as casas e palacetes das redondezas bem como as
capoeiras do quintal, jardins da vizinhança para não dizer, às vezes, as
pombinhas e borrachos da torre da igreja, o arrebitadito e agressivo galito.
Ele sarapintado e muito atrevido
no seu matinal e despertador canto gostava também de exibir do alto do seu
poleiro como um grande orador as suas qualidades artísticas e fónicas, por
vezes estridentes e arrepiantes, sendo muito néscio na arte de solfejar o só li
dó!
Valha-lhe Deus e Santo António!
Oxalá que o seu cacarejo não fique sem pio!
Todos os anos, a urbe coloria-se
como manda a secular tradição, para celebrar com muita alegria e foguetada o
dia da cidade, creio que no dia 6 de Maio, mês das flores, rosas e lírios.
Era a Festa do Senhor das CRUZES, em Barcelos, sim senhor!
As ruas da pequena cidade
sobranceira ao rio Cávado e de frente para Barcelinhos e outras mais afastadas
da igreja do Senhor das Cruzes embelezavam-se e até as cristas púrpuras e bicos amarelados
dos galitos e galões dispersos em locais estratégicos, mas sem pedestal
cantavam solenemente ao desafio canções de embalar e de irritar ao ponto de
acordar os dorminhocos e espantar transeuntes curiosos e forasteiros.
E, ai, ai de quem não vai à
festa! Sujeita-se a ser fortemente penicado pelo valente patrão da capoeira e
pelo imenso refugo do seu criador, Rosa Ramalho.
Portanto, toca a andar, toca a marchar e cantarolar na rua!
E o dia chegou florido e primaveril!
Mas, nós habituados ao recolhimento dos corredores, salas e
celas não nos íamos embrenhar na confusão arruaceira das ruelas, praças e
jardins, nem atrapalhar com a nossa vestimenta o intenso trânsito verificado
nas ruas e avenidas, não senhor!
Insatisfeitos, mas não resignados lá permanecemos no casarão,
solitária e piamente vendo as bandas e os carros passar.
Vim a saber mais tarde, creio que de fonte fidedigna ou artes
mágicas de pitonisa grega que foram encontrados alguns pobres menores e noctivamente
atrevidos, divertindo-se pouco ordeiramente até altas horas da noite, algures
em ruas estreitas, bares e locais de duvidosa moral e também em trincheiras e
parques de diversões motorizados, disfarçados de romeus ou julietas, arlequins
e manjeronas, santos ou santas para não dizer de belzebus alados, encabeçando
grandes e coloridas penas de avolumada penugem do dito pito, esquecendo-se
ardilosamente dos seus enclausurados pares, segurando e carregando heroicamente
nos costados e quase há quarenta e
cinco anos, mais que a idade do sofredor Cristo, as pesadas cruzes do Senhor das Cruzes!
Oh, ai, ó lindo!
Joaquim Afonso
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