Crónicas e Reflexões

domingo, 4 de maio de 2014

O GALITO DE BARCELOS E A FESTA DO SENHOR DAS CRUZES






O GALITO DE BARCELOS E A FESTA DO SENHOR DAS CRUZES

(Maio de 69)



  
…e a propósito do galito de Barcelos…

Preferem pitinho novo ou velhinho?


(Se, no (vinho), rumem até Barcelos, onde decorre este fim-de-semana de Maio de 2014 a Festa Anual do Senhor das Cruzes, se velhinho procurem na feira ou algures por aí…)


Isto de fugir às rígidas regras estabelecidas pela mundividência medieval e posterior renascimento/classicismo artístico e literário e demais regras do fundador (de Assis), diga-se Francisco de nome, ditadas de modo estrangeirado e em tempo longínquo, os que obediente, talvez livre e paradoxalmente aceitaram sem resmungar aturdidamente noite e dia, a novidade bárbara e incipiente, irónica e pobremente noviça, à guisa da época, claro, que em galaico-vernáculo português são tidos como pobrezinhos de pé descalço, mas destemidos aventureiros nas nativas e limítrofes terras, uma aventura arriscada e atrevida para o tempo e para o “saeculum”.

Aqueles seres humanos quase desprovidos de bens e luxúria terrena e alojados na remediada, sóbria e comprida casa de três andares e em celas ou quartos desprovidos de conforto, adereços vistosos, mas luxuosa em austeridade para tão tenras e quase imberbes idades, mas familiarizados paulatinamente com os usos, costumes, tradições e rituais do quotidiano lá se iam adaptando aos afazeres profanos e sacrossantos rituais, não como a mistura da farinha poeirenta ou pó ressequido que encobria a miséria ou a santidade dos velhos santos guardados no já histórico sótão referido ou outros mais expostos ao público em local de veneração, porque mais briosos, nutridos e milagreiros, talvez mais do que as velas que os alumiavam, mas como grãos de milho florescente.

A vida matinal era sempre uma agradável novidade quer pela saudável azáfama no interior da casa quer pelas quotidianas tarefas quase rotineiras, correrias para a portaria no lado adjacente e frontal da casa, junto a uma rua de caras e aberta para a cidade, a campainha da porta principal, sobretudo às quintas-feiras, insistentemente a incomodar o silêncio e a clausura dos iniciáticos bem como os pacíficos animais enjaulados em cativeiro no minúsculo quintal que ia acusando já alguma incúria e desleixo franciscano provocando algumas mazelas nas verduras circundantes e no viçoso nabal junto aos alicerces da igreja.

As histéricas gritarias nos jardins exteriores e ruas adjacentes cheias de alguma porcaria e excrementosos odores de animais vadios e outros, perdão, muita trampa e muita merda bem como dejectos de animais domésticos básicos e outros mais graúdos, diga-se, que vinham passear até à cidade e feira do gado, talvez como turistas semanais ou escravos dos seus próprios donos para fins duvidosos, enfim, vida e laboração das fumegantes chaminés para a produção das esfíngicas fábricas.

Os nossos encontros diários pautados pela oração ao criador e hinos de glória ao fundador, ordem e disciplina transformavam os nossos verdes corações num matiz inebriante e o seu éter contaminava a casa, as casas e palacetes das redondezas bem como as capoeiras do quintal, jardins da vizinhança para não dizer, às vezes, as pombinhas e borrachos da torre da igreja, o arrebitadito e agressivo galito.


Ele sarapintado e muito atrevido no seu matinal e despertador canto gostava também de exibir do alto do seu poleiro como um grande orador as suas qualidades artísticas e fónicas, por vezes estridentes e arrepiantes, sendo muito néscio na arte de solfejar o só li dó!

Valha-lhe Deus e Santo António! Oxalá que o seu cacarejo não fique sem pio!

Todos os anos, a urbe coloria-se como manda a secular tradição, para celebrar com muita alegria e foguetada o dia da cidade, creio que no dia 6 de Maio, mês das flores, rosas e lírios.

Era a Festa do Senhor das CRUZES, em Barcelos, sim senhor!

As ruas da pequena cidade sobranceira ao rio Cávado e de frente para Barcelinhos e outras mais afastadas da igreja do Senhor das Cruzes embelezavam-se e até as cristas púrpuras e bicos amarelados dos galitos e galões dispersos em locais estratégicos, mas sem pedestal cantavam solenemente ao desafio canções de embalar e de irritar ao ponto de acordar os dorminhocos e espantar transeuntes curiosos e forasteiros.

E, ai, ai de quem não vai à festa! Sujeita-se a ser fortemente penicado pelo valente patrão da capoeira e pelo imenso refugo do seu criador, Rosa Ramalho.


 Portanto, toca a andar, toca a marchar e cantarolar na rua!

E o dia chegou florido e primaveril!

Mas, nós habituados ao recolhimento dos corredores, salas e celas não nos íamos embrenhar na confusão arruaceira das ruelas, praças e jardins, nem atrapalhar com a nossa vestimenta o intenso trânsito verificado nas ruas e avenidas, não senhor!

Insatisfeitos, mas não resignados lá permanecemos no casarão, solitária e piamente vendo as bandas e os carros passar.

Vim a saber mais tarde, creio que de fonte fidedigna ou artes mágicas de pitonisa grega que foram encontrados alguns pobres menores e noctivamente atrevidos, divertindo-se pouco ordeiramente até altas horas da noite, algures em ruas estreitas, bares e locais de duvidosa moral e também em trincheiras e parques de diversões motorizados, disfarçados de romeus ou julietas, arlequins e manjeronas, santos ou santas para não dizer de belzebus alados, encabeçando grandes e coloridas penas de avolumada penugem do dito pito, esquecendo-se ardilosamente dos seus enclausurados pares, segurando e carregando heroicamente nos costados e quase há quarenta e cinco anos, mais que a idade do sofredor Cristo, as pesadas cruzes do Senhor das Cruzes!


Oh, ai, ó lindo!


Joaquim Afonso





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