Crónicas e Reflexões

terça-feira, 8 de abril de 2014

IIª SINFONIA - O RIO TORTO



O RIO TORTO – (IIª Sinfonia)

(As traquinices fluviais)


O Milhafre


Recordo de entre muitas algumas peripécias e tontarias junto ao apelidado “Torto”, rio nas margens e terras adjacentes, mas sobretudo no seu leito estreito, pouco profundo, pedregoso e lamacento, umas solitariamente, outras história em grupo.

De entre muitas seleccionei duas.

Uma situada próximo do rio num monte cheio de pinheiros, carvalhos, eucaliptos, mato e giestas no lugar de Vilarelho e outra, situada no lugar da Igreja, mas não tenho memória de ter participado nela e como a ouvi sobejamente contar a alguns amigos da geração que nela participaram activa ou passivamente, mereceu a minha atenção e destaque.

À primeira intitulei de ”O Milhafre” quer pelo encanto da voz e voo da ave, quer pela perigosidade da aventura, para não dizer, loucura pueril que podia trazer maus resultados. À segunda intitulei de ”O Fantasma”, que contarei na IIIª Sinfonia.

Naqueles tempos dos verdes e tenros anos algumas cabecinhas não pensavam ou recusavam inconscientemente pensar, não por falta de cérebro, educação e escola, mas as circunstâncias e o meio assim o consentiam, penso eu. Então, não é que numa manhã soalheira de Primavera à semelhança de outras cíclicas estações lá – eu, minha irmã e um meu irmão, não me recordando qual – dirigimo-nos para um monte situado a caminho e perto da casa do Sr. José Chedas, depois de atravessarmos a mini e raquítica ponte sobre o rio Torto...

...afastados do caminho principal e já no cimo do monte, com os diversos animais a pastar alegre e gulosamente, comecei a ver no cimo de alguns pinheiros uns movimentos anormais e esquisitos de uma ave de grande porte, que se aproximava repentina e velozmente aos silvos estridentes do centro de um grande e vetusto pinheiro, talvez de 60 a 70 metros de altura e quase um metro e meio de diâmetro. Este movimento fez-me despertar a curiosidade sobre o que passava lá bem no cimo. Acontece que os meus olhos cá de baixo, apenas enxergavam um volume anormal lá em cima.

Para satisfazer ainda mais a curiosidade, secretamente e longe dos olhares dos presentes, comecei a trepar descalço o alto e grosso mastro, mas ainda não ia a meio, já as minhas mãos, pernas e pés acusavam a dureza e dificuldade de tal aventura, ao ponto de no meio das pernas as calças apresentarem já ligeiros furos, bem como, a camisa de tantas esfregadelas do corpo à casca rugosa e dura do histórico pinheiro.

O meio da subida serviu para descansar um pouco e dar uma olhadela pelas redondezas agrestes, não estivessem os animais a fazer marotices nos terrenos dos vizinhos.

Passados uns instantes, qual elevador ou tartaruga, recomeço a subida, mas já com algum receio da altura, do que vislumbrava e do que nem sonhava encontrar. Subi, subi a custo até ao primeiro andar, onde me consegui segurar aos galhos resistentes e retemperar as forças.


Continuei a subir mais uns metros e deparo com um enorme e tosco cesto mal feito e mal cheiroso entrelaçado nos galhos centrais e finais, onde se ouviam ruídos e viam movimentos bruscos de um pássaro grande. Fiquei deveras atrapalhado, melhor dito, acagaçado!

À medida que me aproximava do ninho, coisa nunca vista a olho nu, a enorme ave em movimentos descendentes e ascendentes, repentinos e ameaçadores em direcção a mim, provocava imenso receio e arrepios.

Até que chegado ao local desejado, deparo com muita surpresa e encanto com dois gordos filhotes de pernas altas e esguias, bicos e olhos enormes virados e arregalados para o intruso, coisa de meter medo naquela altura, penicando e picando-me as atrevidas e ulceradas mãos enfeitadas dos esguios e quase dormentes dedos.

Foi espantoso! E, agora?

Pensei para comigo lá das alturas. Bom, depois desta extenuante viagem, sem elevador e tapete rolante, só me resta apanhar estes franganitos e levá-los comigo. Pensei numa corda, mas não tinha corda, pensei numas asas, mas não tinha asas, pensei…em Ícaro, mas este usou asas de cera e…

Mas, como?

Como a camisa já acusava alguns buracos aqui e ali, mas ainda com alguma resistência, atrevida e silenciosamente pego nos jovens e penugentos aprendizes de pitos e coloco-os dentro da esfarrapada camisa, um à frente e outro atrás, mas com o bico e olhos para fora para poderem respirar e ver livremente a paisagem em redor.

 Sem dúvida a primeira e última epopeia para os jovens rebentos!

No início da descida algo estranho acontece. Os movimentos da ave mãe aceleram-se em minha direcção e tive obrigatoriamente de fazer STOP.

Chamo o meu irmão que se encontrava entretido nas redondezas e digo-lhe para subir até meio do pinheiro e minha irmã ficar em baixo. Pedi-lhe, gritando e gesticulando que trouxesse o avental da minha irmã à cintura e se segurasse bem com unhas e dentes.

Dito e feito.

Eu lá de cima lança cuidadosamente os rebentos para o avental do meio, que miraculosamente os amortecia e amparava. O meu irmão que se encontrava a meio do pinheiro, inicia a descida em direcção ao sopé, que os entrega receosamente à minha irmã para os proteger e agasalhar. Eu inicio a descida vertiginosa em direcção ao ponto donde partira, acompanhado lá do alto e de volta de gritos estridentes e sibilantes, semelhantes a uma orquestra ou banda popular desafinada e ensurdecedora.

(Tratando-se de uma ave protegida, merece certamente toda a atenção, para que continuemos a usufruir do privilégio da sua companhia, a planar livremente no horizonte. Mas, as ameaças com que se confronta são as comuns à generalidade das aves de rapina – destacando-se o abate a tiro, com armas de caça, que será a sua principal causa de mortalidade no nosso País. Esta situação indicia, uma vez mais, a necessidade de uma persistente sensibilização das populações a este tipo de questões, tendo em vista a protecção das espécies e o equilíbrio ambiental futuro) 


 

Olhando em redor, os animais pasmados de ignorantes uns e outros intrigados, mas todos acusando já alguma saciedade começaram a aproximar-se do local aventuroso como que a querer dizer-nos, que já estavam com sede e saudades da água do rio Torto e do seu curral!

(…)

“E é sempre a primeira vez Em cada regresso a casa Rever-te nessa altivez De milhafre ferido na asa”.
in Rui Veloso

Ó, ai, ó linda!

Joaquim Afonso

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