O RIO TORTO – (IIª Sinfonia)
(As traquinices fluviais)
O Milhafre
Recordo
de entre muitas algumas peripécias e tontarias junto ao apelidado “Torto”, rio nas margens e terras adjacentes, mas sobretudo no seu leito
estreito, pouco profundo, pedregoso e lamacento, umas solitariamente, outras história em
grupo.
De entre
muitas seleccionei duas.
Uma
situada próximo do rio num monte cheio de pinheiros, carvalhos, eucaliptos,
mato e giestas no lugar de Vilarelho e outra, situada no lugar da Igreja, mas
não tenho memória de ter participado nela e como a ouvi sobejamente contar a alguns amigos da geração que nela participaram activa ou
passivamente, mereceu a minha atenção e destaque.
À
primeira intitulei de ”O Milhafre” quer
pelo encanto da voz e voo da ave, quer pela perigosidade da
aventura, para não dizer, loucura pueril que podia trazer maus resultados. À
segunda intitulei de ”O Fantasma”, que contarei na IIIª Sinfonia.
Naqueles
tempos dos verdes e tenros anos algumas cabecinhas não pensavam ou recusavam
inconscientemente pensar, não por falta de cérebro, educação e escola, mas as
circunstâncias e o meio assim o consentiam, penso eu. Então,
não é que numa manhã soalheira de Primavera à semelhança de outras cíclicas
estações lá – eu, minha irmã e um meu irmão, não me recordando qual – dirigimo-nos
para um monte situado a caminho e perto da casa do Sr. José Chedas, depois de
atravessarmos a mini e raquítica ponte sobre o rio Torto...
...afastados
do caminho principal e já no cimo do monte, com os diversos animais a pastar
alegre e gulosamente, comecei a ver no cimo de alguns pinheiros uns movimentos
anormais e esquisitos de uma ave de grande porte, que se aproximava repentina e
velozmente aos silvos estridentes do centro de um grande e vetusto pinheiro,
talvez de 60 a 70 metros de altura e quase um metro e meio de diâmetro. Este
movimento fez-me despertar a curiosidade sobre o que passava lá bem no cimo. Acontece
que os meus olhos cá de baixo, apenas enxergavam um volume anormal lá em cima.
Para
satisfazer ainda mais a curiosidade, secretamente e longe dos olhares dos presentes,
comecei a trepar descalço o alto e grosso mastro, mas ainda não ia a meio, já as
minhas mãos, pernas e pés acusavam a dureza e dificuldade de tal aventura, ao
ponto de no meio das pernas as calças apresentarem já ligeiros furos, bem como, a
camisa de tantas esfregadelas do corpo à casca rugosa e dura do histórico
pinheiro.
O meio
da subida serviu para descansar um pouco e dar uma olhadela pelas redondezas
agrestes, não estivessem os animais a fazer marotices nos terrenos dos vizinhos.
Passados
uns instantes, qual elevador ou tartaruga, recomeço a subida, mas já com algum
receio da altura, do que vislumbrava e do que nem sonhava encontrar. Subi,
subi a custo até ao primeiro andar, onde me consegui segurar aos galhos
resistentes e retemperar as forças.
Continuei
a subir mais uns metros e deparo com um enorme e tosco cesto mal feito e mal
cheiroso entrelaçado nos galhos centrais e finais, onde se ouviam ruídos e viam
movimentos bruscos de um pássaro grande. Fiquei deveras atrapalhado, melhor
dito, acagaçado!
À
medida que me aproximava do ninho, coisa nunca vista a olho nu, a enorme ave em
movimentos descendentes e ascendentes, repentinos e ameaçadores em direcção a
mim, provocava imenso receio e arrepios.
Até
que chegado ao local desejado, deparo com muita surpresa e encanto com dois
gordos filhotes de pernas altas e esguias, bicos e olhos enormes virados e
arregalados para o intruso, coisa de meter medo naquela altura, penicando e
picando-me as atrevidas e ulceradas mãos enfeitadas dos esguios e quase
dormentes dedos.
Foi
espantoso! E, agora?
Pensei
para comigo lá das alturas. Bom, depois desta extenuante viagem, sem elevador e
tapete rolante, só me resta apanhar estes franganitos e levá-los comigo. Pensei
numa corda, mas não tinha corda, pensei numas asas, mas não tinha asas, pensei…em
Ícaro, mas este usou asas de cera e…
Mas,
como?
Como a
camisa já acusava alguns buracos aqui e ali, mas ainda com alguma resistência,
atrevida e silenciosamente pego nos jovens e penugentos aprendizes de pitos e
coloco-os dentro da esfarrapada camisa, um à frente e outro atrás, mas com o
bico e olhos para fora para poderem respirar e ver livremente a paisagem em
redor.
Sem
dúvida a primeira e última epopeia para os jovens rebentos!
No início da descida algo estranho acontece. Os movimentos da ave mãe aceleram-se em minha direcção e tive obrigatoriamente de fazer STOP.
No início da descida algo estranho acontece. Os movimentos da ave mãe aceleram-se em minha direcção e tive obrigatoriamente de fazer STOP.
Chamo
o meu irmão que se encontrava entretido nas redondezas e digo-lhe para subir
até meio do pinheiro e minha irmã ficar em baixo. Pedi-lhe, gritando e
gesticulando que trouxesse o avental da minha irmã à cintura e se segurasse bem
com unhas e dentes.
Dito e
feito.
Eu lá de cima lança cuidadosamente os rebentos para o avental do meio, que
miraculosamente os amortecia e amparava. O meu irmão que se encontrava a meio do pinheiro, inicia a descida em
direcção ao sopé, que os entrega receosamente à minha irmã para os proteger e
agasalhar. Eu inicio a descida vertiginosa em direcção ao ponto
donde partira, acompanhado lá do alto e de volta de gritos estridentes e
sibilantes, semelhantes a uma orquestra ou banda popular desafinada e
ensurdecedora.
(Tratando-se de uma ave protegida, merece certamente toda
a atenção, para que continuemos a usufruir do privilégio da sua companhia, a
planar livremente no horizonte. Mas, as ameaças com que se confronta são as comuns à
generalidade das aves de rapina – destacando-se o abate a tiro, com armas de
caça, que será a sua principal causa de mortalidade no nosso País. Esta
situação indicia, uma vez mais, a necessidade de uma persistente sensibilização
das populações a este tipo de questões, tendo em vista a protecção das espécies
e o equilíbrio ambiental futuro)
Olhando
em redor, os animais pasmados de ignorantes uns e outros intrigados, mas todos
acusando já alguma saciedade começaram a aproximar-se do local aventuroso como
que a querer dizer-nos, que já estavam com sede e saudades da água do rio Torto
e do seu curral!
(…)
“E é
sempre a primeira vez Em cada regresso a casa Rever-te nessa altivez De
milhafre ferido na asa”.
in Rui Veloso
Ó, ai, ó linda!
Joaquim Afonso

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