Tendo como mote o provérbio "Quem nasce torto, tarde
ou nunca se endireita” ou a "metáfora do êxodo", pensei registar algumas
impressões, memórias, pensamentos vários sobre o RIO TORTO, do qual mantenho
a mesma lembrança de infância e hoje à distância do passar e correr dos tempos algures
distante é uma memória inolvidável!
Prometo aguçar e cativar a vossa atenção e
curiosidade ao longo de cinco sinfonias, pois algumas peripécias tiveram como
intervenientes meninos e adultos da terra como eu em tempos de antanho!
O RIO TORTO – (Iª sinfonia)
O RIO TORTO – (Iª sinfonia)
(Afluente da margem
esquerda do rio Ave)
A Génese (origem)
Nasceu pequenino como
todos nós quando nascemos, cresceu, alargou o seu tronco e membros, definiu o seu
itinerário, desenvolveu-se, criou amigos, laços de amizade por onde passou,
estendeu as suas pernas, braços para a vizinhança e até às redondezas mais
íngremes e inférteis, mas infelizmente também se zangou com o seu próprio
percurso rotineiro e traiçoeiro, às vezes transbordando amiúde pelas margens
mais baixas e mais planas.
Por vezes, inconscientemente
alimentou pequenas desavenças entre a vizinhança mais atrevida e inculta, mas
estas fruto da avareza de quem o não soube estimar e ingratamente não lhe
reconheceu a dádiva merecida.
No início e algures na
serrania, ainda mimado, muito madrugador em tempo estival ou invernoso,
espreitando timidamente por entre buracos de pedras e pedregulhos, terra
lamacenta e arenosa, penhascos e montes, musgos, silvas e adornado de relva
quais palhinhas em confortável manjedoura até mostrar a sua pueril e incolor
face como um principiante peregrino a caminho do santuário distante e aprendiz
de andanças incertas, tortuosos caminhos futuros e escorregadios pelas curvas
sinuosas e acidentadas da sua limitada e servil rota.
O seu berço natal em nada se compara ao dos seus irmãos mais destemidos, ligeiramente obesos e compridos e sobretudo ao seu irmão mais crescido de renome e fama nacional, mas que desde há vários anos carrega a pesada cruz da poluição e dos nojentos odores de efluentes vários acumulados no seu leito, sem pejo e respeito de quem é saudavelmente banhado e ainda por cima, diga-se por baixo, é afluente da margem esquerda do Ave!
Mas que Ave!
Não será melhor rezar umas Ave-Marias?
Mais uma vez aqui se aplica o velho provérbio: “Quem nasce torto tarde ou nunca se endireita!”
Certamente não consta nos mapas genealógicos locais, regionais nem nos mapas fluviais e hidrográficos nacionais.
Claro, não tem ainda, apesar de provecto ancião e provavelmente nunca terá o estatuto merecido e devido face à sua fantástica pequenez, origem humilde, meio circundante e educação arcaicamente recebida.
A sua grandeza e soberba advêm do facto da sua humilde pequenez e atrevida ruralidade. A sua altivez da estreiteza e magreza da sua fibra.
Mas, dos fracos não reza a
história!...
Alto!
Apesar destes atributos,
alguns nada abonatórios, percorre e saltita muito diligentemente os montes,
galgando fragas e presenteando o seu sorriso pelas margens planas e baixios
mais dóceis.
Não consta historicamente que tenha atrevida e loucamente armado confusão com os outros seus irmãos mais distantes, antes pelo contrário, fornecido o que generosa e copiosamente lhe vai doando a mãe natureza e alimentando paulatinamente a gordura do seu e outros corpos.
Por isso mesmo merece o
nosso respeito pela dádiva gratuita, mesmo em tempos de carestia estival!
Mas… hoje… já não és certamente como te conheceram no passado!
Apesar de ainda manter a sua estrutura geológica, arquitectónica e curvilínea pelas terras por onde passa e são várias a saber: Casal Estime (lugar onde nasce?), S. Miguel do Monte - Vilarelho, Cimo de Vila, Igreja, Lordelo – lugares de freguesia de Serafão - Agrela, Arosa, Freitas… a abundância passada das suas águas parece mais reduzida e menos cristalina carecendo do antigo aconchego de muitas árvores e arbustos companheiros dóceis e inseparáveis do passado.
É que o seu minúsculo e por vezes razoável caudal conforme o sabor e generosidade das estações ao longo do sinuoso e torto percurso dava para encher as muitas poças, açudes e tabiques em que se armazenavam criteriosamente as suas lágrimas reconvertidas em água cristalina para depois em dias e horas estipuladas por tradições antigas, os seus braços canalizados e encaminhados de acordo com regras não escritas, mas tidas e respeitadas com palavra de honra pelos humanos das terras para as propriedades das diversas povoações rurais, percorrendo várias centenas de metros e até quilómetros em direcção ao destino desejado.
Tratava-se, por vezes, de uma viagem algo acidentada pelos canais engendrados a pá e pica - regos se diz, saibro e pedregulhos havendo de permeio muitos empecilhos e atritos.
Mas, chegar ao destino era sempre uma incógnita aventura!
O progresso e a modernidade muito positivo para os proprietários e moradores deixa certamente nos seus tapetes reflexos negros aqui e ali.
Apesar de não lhe terem
alterado o percurso heróico e ancestralmente traçado, voluntaria ou
inadvertidamente fizeram-se reflectir os seus efeitos negativos.
E, hoje, no deambular do 3º milénio, a sua cor, o odor, o caudal, os frutos e os seus braços que ampararam e ajudaram em direcção à meta acusam uma certa míngua e penúria, desmazelo e incúria em relação ao passado.
Será que o serpentear e murmúrio do seu caudal quererá advertir-nos do seu sentir?
Ou estará ingloriamente a sofrer a crise dos que à crise foram votados?
Afinal, o que lhe aconteceu? Deixaram de o apreciar?
Ele que tantos benefícios
e fertilidade doou ao povo no ciclo das estações, estendeu os seus longos e
generosos braços nas várias direcções dos aflitos, calcorreou fragas e socalcos,
matou a sede à fauna e flora e como bombeiro diligente apagou muitas labaredas
e quase fogos infernais.
Todos têm beneficiado
deste pequeno e grande bem.
Que se saiba, ainda
ninguém foi interditado de o visitar.
Será que hoje
meterá medo ao susto?
Naturalmente que estará à
espera de dias melhores, que lhe façam a barba, tratem da sua aparência
fluvial, cuidem da sua superfície e profundidade, tal é o peso da sua idade!
A
ver vamos, ó ai, ó linda!
Joaquim Afonso
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