Crónicas e Reflexões

domingo, 13 de abril de 2014

IVª Sinfonia - O RIO TORTO




O RIO TORTO (IVª sinfonia)


DLIM... DLÃO ... 

TOCA O SINO DE SERAFÃO...



Dlim..dlão...dlão dlim...dlim...dlão...

toca o sino de Serafão,
o sino é doiro, pica no toiro,
o toiro é bravo,
arrebita o rabo
 pra cima do telhado...

(in, autor anónimo...?)

"Somos de Fafe, somos do Minho,
somos da terra, d´onde há bom vinho,
d´onde há bom vinho, d´onde há bom pão,
somos da terra de Serafão!"

in...

 



Mas, quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão?
 
Não, não é o desbotado e fingidamente cansado sino da tua aldeia natal ou a sineta do campanário ou capela do teu belo, verdejante e irregular lugar a tocar. Nem o futuro sino com o pêndulo às cabeçadas do avesso, a espreitar o que debaixo das saias está da recente, atrevida, sacrificada, mal ou bem abençoada e enigmática capela em forma de velha escola, algures escondida entre ciprestes, pinheiros e videiras, no cimo do pedregoso e saibroso morro.. está descansado!

Esse, apesar das tocadelas estridentes e fortes badaladas de outrora, certamente ainda se encontra suspenso no seu merecido lugar, desde há muitos anos desperto para o azedo e ledo trabalho quotidiano e vespertino, na cinzelada e fortificada torre sineira e cimeira da igreja da aldeia, vigiando atentamente dia e noite e em todas as estações do ano, quase esfíngica pirâmide sem deserto, sem areia, sem camelos e com todo o diligente heroísmo do passado, o seu patrono histórico denominado S. Julião de Serafão bem como a grande parte das rurais e frugais redondezas.
  
Creio que foi assim que aprendi esta lengalenga, não sei quando e em que circunstâncias e até nem sei quem foi o autor de tão prosaica e sonora poética.
  
Apenas sei, que quando ele lá do alto para baixo e paradoxalmente para cima, talvez aos quatro ventos e pontos cardiais, vociferava melodicamente com o pêndulo pesado e grosso, qual colosso de Rodes, não à entrado do porto de abrigo e salvação, mas a meão e nas bordas da campânula de chumbo artisticamente fundidas por artífice desconhecido, toda a população e animais vários não exóticos, dispersos pelos campos, caminhos, montes, fragas, quelhos e também em casa ou noutros lugares e afazeres campestres ou domésticos, fazia nascer uma tal atenção e reverência, diga-se honradamente quase de emoção inumana, querendo-nos inteligente e prudentemente dizer em alto e bom som que algo de importante iria acontecer ou aconteceu ao ponto de despertar toda a atenção dos eufóricos cinco sentidos e fazendo estremecer o nosso pequeno corpo e alma, suspeitando-se quase sempre de algo imprevisto e anormal, lá para os lados de baixo ou de cima, entre as margens extensas e serpenteadas do Torto rio.

A própria água do fértil ribeiro de então e ainda hoje, talvez, que navegava suavemente pelos lados debaixo da antiga casa do senhor abade, da grande e palaciana casa e espigueiro do assento e também do Alfredo:

"Ai, ai, ai, ó senhor Alfredo...

não me bata o pé,

que eu não lhe tenho medo..."
E era assim…

Gritava amiúde o altifalante ora meio rouco, ora meio aturdido e ensurdecedor, em tempos merecidamente festivos para o núcleo e cimeiro num grande e alto pau ou oliveira centenária qual palhaço sem asas e adereços, actuando passivamente num circo carecendo de energia e vitalidade.

Passava, dizia, muito mansinho e sedento no Verão e mais espicaçado e furioso nos duros invernos saltitando de temor piedoso como saltita e pinoteia um touro nos verdes prados socalcados e nas fragas irregulares, assemelhando-se a uma vaca louca ou manhosa toura em tempo caduco de cio assanhado.

Sinto que estas badaladas infantis e distantes e ainda muito históricas e sonoras, continuam a eclodir pelos montes, vales e serranias, hoje certamente diferentes no conteúdo eco, mas as mesmas nos geográficos e definidos espaços da famigerada e inexplorada céltica aldeia nortenha.

Já não tenho ideia de quem era o tocador dos sinos da Igreja de S. Julião de Serafão, nem do artista que puxava as grossas cordas, trabalho de esforço gigantesco conforme a solenidade e muito malabarismo hercúleo!

Uma vez (trata-se de uma confidência, meus amigos/as), talvez atrevida e indevidamente relatada, subindo clandestinamente as rodadas escadas em caracol em direcção à alta torre e por espaço muito exíguo até ao espaço reservado e frio do habitáculo dos retumbantes sinos, creio que em dia menos solene para a freguesia, ver um bela e cristã criatura zombando e zombando as grossas e curtas cordas, fazendo-os emitir de um lado e do outro sons e mais sons, uns mais alegres que tristes ao ponto de verificar no interior da grande campânula as suas entranhas muito magoadas e gastas pelo tempo de tantas e tantas marteladas sem martírio.

Tudo isto me impressionou bastante, até os seus lacrimogénios e doridos olhos bem como as suas muito calejadas mãos, dedos e pés cheios de gretas, o suor da sua rosada face e testa, o pescoço vermelho como um peru, para já não falar doutras partes do encoberto corpo.

E para quê?

Alguém merecia este duradouro esforço?

Quem?

Foram tantos e tantos, os seus nomes hoje, indelicada e injustamente não sei, mas sei que eram pessoas queridas da sua e nossa terra que partiram para outras terras, talvez sem montes e vales, quem adivinhará..., talvez uma planície verdejante ou prado de repouso eterno!

Mas, estas badaladas eram emocionalmente impressionantes!

Por vezes, comparavam-se ao toque das trindades. Certamente diferentes daquelas melodias que noticiam os nossos jornais diários.

Conseguiram, certamente, fazer despertar as minhas já provectas memórias interiores tão reprimidas e obscurecidas ao longo do tempo e por tão profundos e longevos solstícios de imigrante da minha aldeia natal, não porque não tivesse vontade de as fazer nascer e renascer, mas um natural e bom parto, penso, sempre foi tarefa arriscada e de difícil engenho.

Mas, ai...ai...de quem larapiamente se atrever a ludibriar e roubar o sino da minha igreja...

Ter-se-á ou ter-se-ão a ver cruel e ferozmente com a justiça de Fafe e com a multidão de paus e pedras, penedos e gadanhos, forcados e espadas finamente aguçadas, para não dizer de outros artefactos guardados secretamente para situações extremas, cedidas umas bem enfeitadas pelo histórico e pacífico Afonso conquistador e outras mais liths pelos seus destemidos cavaleiros e sarracenos, apesar dos tempos de festa festejado e no merecido cedido espaço e tempo, prazenteio justo e gozo das suas herdadas cavalariças.

Desta vez, não será até ao Castelo de S. Jorge, no distante, vaidoso, desgovernado e dissimulado Ulissopo, não como nos tempos e medievais idos, mas até ao transtejano Alentejo e praias do algarvio solo.

Ó, ai, ó linda!





Joaquim Afonso


 

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