O RIO TORTO (IVª
sinfonia)
DLIM... DLÃO ...
TOCA O SINO DE SERAFÃO...
Dlim..dlão...dlão dlim...dlim...dlão...
toca o sino de Serafão,
o sino é doiro, pica no toiro,
o toiro é bravo,
arrebita o rabo
pra
cima do telhado...
(in, autor anónimo...?)
"Somos de Fafe, somos do Minho,
somos da terra, d´onde há bom vinho,
d´onde há bom vinho, d´onde há bom pão,
somos da terra de Serafão!"
in...
Mas, quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão?
Não, não é o desbotado
e fingidamente cansado sino da tua aldeia natal ou a sineta do campanário ou
capela do teu belo, verdejante e irregular lugar a tocar. Nem o futuro
sino com o pêndulo às cabeçadas do avesso, a espreitar o que debaixo das saias
está da recente, atrevida, sacrificada, mal ou bem abençoada e enigmática
capela em forma de velha escola, algures escondida entre ciprestes, pinheiros e
videiras, no cimo do pedregoso e saibroso morro.. está descansado!
Esse, apesar das
tocadelas estridentes e fortes badaladas de outrora, certamente ainda se
encontra suspenso no seu merecido lugar, desde há muitos anos desperto para o
azedo e ledo trabalho quotidiano e vespertino, na cinzelada e fortificada torre
sineira e cimeira da igreja da aldeia, vigiando atentamente dia e noite e em
todas as estações do ano, quase esfíngica pirâmide sem deserto, sem areia, sem
camelos e com todo o diligente heroísmo do passado, o seu patrono histórico
denominado S. Julião de Serafão bem como a grande parte das rurais e frugais redondezas.
Creio que foi
assim que aprendi esta lengalenga, não sei quando e em que circunstâncias e até
nem sei quem foi o autor de tão prosaica e sonora poética.
Apenas sei, que
quando ele lá do alto para baixo e paradoxalmente para cima, talvez aos quatro
ventos e pontos cardiais, vociferava melodicamente com o pêndulo pesado e
grosso, qual colosso de Rodes, não à entrado do porto de abrigo e salvação, mas
a meão e nas bordas da campânula de chumbo artisticamente fundidas por artífice
desconhecido, toda a população e animais vários não exóticos, dispersos pelos
campos, caminhos, montes, fragas, quelhos e também em casa ou noutros lugares e
afazeres campestres ou domésticos, fazia nascer uma tal atenção e reverência,
diga-se honradamente quase de emoção inumana, querendo-nos inteligente e
prudentemente dizer em alto e bom som que algo de importante iria acontecer ou
aconteceu ao ponto de despertar toda a atenção dos eufóricos cinco sentidos e
fazendo estremecer o nosso pequeno corpo e alma, suspeitando-se quase sempre de
algo imprevisto e anormal, lá para os lados de baixo ou de cima, entre as
margens extensas e serpenteadas do Torto rio.
A própria água do
fértil ribeiro de então e ainda hoje, talvez, que navegava suavemente pelos
lados debaixo da antiga casa do senhor abade, da grande e palaciana casa e
espigueiro do assento e também do Alfredo:
"Ai, ai, ai,
ó senhor Alfredo...
não me bata o pé,
que eu não lhe
tenho medo..."
E era assim…
Gritava amiúde o
altifalante ora meio rouco, ora meio aturdido e ensurdecedor, em tempos
merecidamente festivos para o núcleo e cimeiro num grande e alto pau ou
oliveira centenária qual palhaço sem asas e adereços, actuando passivamente num
circo carecendo de energia e vitalidade.
Passava, dizia,
muito mansinho e sedento no Verão e mais espicaçado e furioso nos duros
invernos saltitando de temor piedoso como saltita e pinoteia um touro nos
verdes prados socalcados e nas fragas irregulares, assemelhando-se a uma vaca
louca ou manhosa toura em tempo caduco de cio assanhado.
Sinto que estas
badaladas infantis e distantes e ainda muito históricas e sonoras, continuam a
eclodir pelos montes, vales e serranias, hoje certamente diferentes no conteúdo
eco, mas as mesmas nos geográficos e definidos espaços da famigerada e inexplorada
céltica aldeia nortenha.
Já não tenho
ideia de quem era o tocador dos sinos da Igreja de S. Julião de Serafão, nem do
artista que puxava as grossas cordas, trabalho de esforço gigantesco conforme a
solenidade e muito malabarismo hercúleo!
Uma vez (trata-se
de uma confidência, meus amigos/as), talvez atrevida e indevidamente
relatada, subindo clandestinamente as rodadas escadas em caracol em direcção à
alta torre e por espaço muito exíguo até ao espaço reservado e frio do
habitáculo dos retumbantes sinos, creio que em dia menos solene para a
freguesia, ver um bela e cristã criatura zombando e zombando as grossas e
curtas cordas, fazendo-os emitir de um lado e do outro sons e mais sons, uns
mais alegres que tristes ao ponto de verificar no interior da grande campânula
as suas entranhas muito magoadas e gastas pelo tempo de tantas e tantas
marteladas sem martírio.
Tudo isto me
impressionou bastante, até os seus lacrimogénios e doridos olhos bem como as
suas muito calejadas mãos, dedos e pés cheios de gretas, o suor da sua rosada
face e testa, o pescoço vermelho como um peru, para já não falar doutras partes
do encoberto corpo.
E para quê?
Alguém merecia este duradouro esforço?
Quem?
Foram tantos e
tantos, os seus nomes hoje, indelicada e injustamente não sei, mas sei que eram
pessoas queridas da sua e nossa terra que partiram para outras terras, talvez
sem montes e vales, quem adivinhará..., talvez uma planície verdejante ou prado
de repouso eterno!
Mas, estas
badaladas eram emocionalmente impressionantes!
Por vezes,
comparavam-se ao toque das trindades. Certamente diferentes daquelas melodias
que noticiam os nossos jornais diários.
Conseguiram,
certamente, fazer despertar as minhas já provectas memórias interiores tão
reprimidas e obscurecidas ao longo do tempo e por tão profundos e longevos
solstícios de imigrante da minha aldeia natal, não porque não tivesse vontade
de as fazer nascer e renascer, mas um natural e bom parto, penso, sempre foi
tarefa arriscada e de difícil engenho.
Mas, ai...ai...de
quem larapiamente se atrever a ludibriar e roubar o sino da minha igreja...
Ter-se-á ou
ter-se-ão a ver cruel e ferozmente com a justiça de Fafe e com a multidão de
paus e pedras, penedos e gadanhos, forcados e espadas finamente aguçadas, para
não dizer de outros artefactos guardados secretamente para situações extremas,
cedidas umas bem enfeitadas pelo histórico e pacífico Afonso conquistador e
outras mais liths pelos seus destemidos cavaleiros e sarracenos, apesar dos
tempos de festa festejado e no merecido cedido espaço e tempo, prazenteio justo
e gozo das suas herdadas cavalariças.
Desta vez, não
será até ao Castelo de S. Jorge, no distante, vaidoso, desgovernado e
dissimulado Ulissopo, não como nos tempos e medievais idos, mas até ao
transtejano Alentejo e praias do algarvio solo.
Ó, ai, ó linda!
Joaquim Afonso
Sem comentários:
Enviar um comentário