Crónicas e Reflexões

sexta-feira, 17 de outubro de 2014


A TAXA e O TACHO






Taxa – “prestação exigida aos particulares que fazem uso de um serviço público”, “imposto”, “percentagem”, “multa”;
- Tive de pagar uma taxa para poder entrar com o meu carro na cidade.

Tacha – “pequeno prego de cabeça chata e larga”, “brocha”, “forma do verbo tachar”. É também utilizada em sentido figurado em expressões como “arreganhar a tacha” e também como sinónimo de “nódoa”.
- Ele consertou o móvel, colocando uma tacha.
- Ele está sempre a arreganhar a tacha. (= a rir)

Tacho é um grande prato ou alguidar cerâmico ou metálico ou uma panela cujo diâmetro é maior do que a altura.
Em sentido figurado, é um emprego bem remunerado que se obteve, não por mérito, mas por favorecimento político ou familiar.






E assim começa a história…

Era uma vez, um tacho, bonito e brilhante, feito do alumínio mais puro e sempre tratado com muito carinho.
Até que um dia...vieram uns comilões e começaram a raspar o tacho, a rapar o tacho, a amolgar o tacho...e assim, o tacho brilhante, que tinha servido para tantas jantaradas formidáveis e gulosas, viu-se abandonado num terreno baldio, que já tinha sido um estadio e agora era uma fossa asséptica...o que será feito dos comilões?
Para onde irá parar o tacho?
Será que alguém ainda consegue voltar a dar brilho ao tacho?

In Alice Alfazema

Tem-se falado e alertado muito nos meios de comunicação social nestes últimos anos para o fenómeno da poluição nas suas mais diversas vertentes e da consciência ecológica.
Mas, mais ainda, recentemente badalada, uma nova estirpe ou nova poluição que se denomina “taxa/tacho”.
Creio que os tímpanos dos nossos ouvidos já estão de tal maneira afectados por esta brutal e colossal epidemia que a cura parece crónica e quase irreversível.

Taxar os mais ricos, taxar a classe média, taxas moderadoras, taxas de juros, taxas de câmbio, taxas Iva, Imi, Irs, Irc, Ia, taxas hipotecárias, taxas alfandegárias, taxas de justiça, taxa Tobin, taxa de discos rígidos, telemóveis e pens, taxas de desemprego, natalidade, mortalidade…
Mal nascemos somos logo taxados e sem tacho. Quando nos registam na Conservatória de Registo Civil logo aplicam uma taxa ou emolumento. Quando entramos na escola primária e agora básica ou outras subsequentes e até naquelas que foram de novas oportunidades, logo taxam.
Quando recorremos ao enfermeiro, médico, centro de saúde, hospital, clínica, farmácia, logo taxam de dia ou de noite.
Quando vamos à Junta de Freguesia, Câmara Municipal, Finanças, serviços de água, electricidade e gás logo taxam às claras ou às escuras, seco ou molhado.
Quando vamos à Conservatória de Registo Predial, Automóvel, Criminal…, tribunal, polícia, logo taxam.
Quando vamos ao banco público ou privado, também taxam.
Quando passeamos na praça pública, circulamos nas estradas, rodovias, auto-estradas, estacionamos o veículo ou navegamos no rio ou mar, logo taxam.
Quando visitamos um museu, castelo, torre, parque arqueológico, zoológico, botânico ou assistimos a um evento pedagógico/recreativo/artístico/cultural, logo taxam.

E, até quando usamos tamancos, ténis, sapatos, botas ou pantufas em eventos medievais ou similares, logo taxam.

Taxam o norte, centro e o sul, o litoral e o interior, a superfície e a profundidade, a água e o vinho, o rico e o pobre, o pires e a chávena, o restaurante e a ementa, a sardinha e o carapau, o pão e o padeiro, o trigo e o joio, o planalto e a planície, o rio e o oceano...
Taxam a horta e o quintal, a quinta e o quinteiro, o mini/latifúndio, o ovo e a galinha, o passo e os passos, o coelho e a lebre, o pássaro e a pássara, o armador, o coveiro e o defunto... o obeso e o magro, o santo e o pecador, o crente e o agnóstico, o padre e o sacristão, o polícia e o ladrão, o ignorante e o culto, as fátimas e as romarias, o tem tudo e o tem nada…
Taxam o híper-super-médio-mini-mercado, a mercearia, o café e a tasca...
Taxam o desporto e o atleta, a pista e a maratona, o cavalo e o burro, a carroça e a caravana…
Taxam o presidente da república e os que da república são, o parlamento, os ministros e ministérios, os deputados e secretários, os assessores e assessorados, as portas e porteiros…
Imaginem vocês que taxavam a Constituição da República, os Códigos de Direito Civil, Penal... a Declaração Universal dos Direitos Humanos e outras similares, a cidadania, a solidariedade, a liberdade, o voluntariado, a bondade, o amor e outros atributos e valores humanos…

E, tudo isto porquê e para quê?

Certamente para que alguns bem-aventurados, neste éden construído historicamente por muitos à beira mar plantado com suor e lágrimas heróicas e outros valentes, mas uns quantos espertos e mexidos como coelhos e ratos usufruirem ferrea e penediamente, varamente costados e loureiramente tortos, diga-se, demiurgos e mensageiros visionários, mimeticamente republicanos, almas eleitas e altamente beneméritas da sua narcísica e arrogante abundância e sobretudo da sopa dos pobres…

Será que um dia irão lavar o tacho da tachada que gulosa e taxativamente sujaram?

Apetece-me parafrasear o doutor João das Regras:

 “olhai, olhai bem, mas vêde.”


 Joaquim Afonso




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