Crónicas e Reflexões

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O sino da minha Aldeia




O SINO DA MINHA ALDEIA

DLIM... DLÃO...

TOCA O SINO DE SERAFÃO...!

Dlim dlão dlão dlim dlim dlão...
toca o sino de Serafão,
o sino é doiro, pica no toiro,
o toiro é bravo,
arrebita o rabo
 p´ra cima do telhado...

 
(in, autor desconhecido...)


Não, não é o desbotado e fingidamente cansado sino da tua aldeia natal ou a sineta do campanário ou capela do teu belo, verdejante e irregular lugar a tocar a rebate, se é que o ouves, nem o futuro e invisível pêndulo às cabeçadas a espreitar o que debaixo da campânula movediça e atrevida, sinuosa e sacrificada, mal ou bem abençoada existe e na enigmática capela em forma de velha escola de estado novo, diga-se, algures escondida entre ciprestes, pinheiros e videiras, num histórico cimo pedregoso e saibroso morro, está descansado, que não ludibriará os teus sensíveis e acústicos tímpanos!


O outro e historicamente verdadeiro, apesar das tocadelas estridentes e fortes badaladas de outrora, certamente ainda se encontra suspenso no cimo de seu merecido lugar, desde há muitos anos vigilante do azedo e ledo trabalho quotidiano e vespertino, na cinzelada e fortificada torre sineira e cimeira da igreja da aldeia, zelando atentamente dia e noite e durante as estações do ano, quase esfíngica pirâmide sem deserto, sem areia, sem camelo e com todo o diligente heroísmo do passado, o seu patrono histórico denominado S. Julião de Serafão bem como a grande parte das rurais e frugais redondezas.


Creio que foi assim que aprendi (a lenga – lenga), não sei quando e em que circunstâncias e até nem sei quem foi o autor de tão prosaica e sonora poética.


Apenas sei, que quando ele lá do alto para baixo e herculeamente para cima, talvez aos quatro ventos e pontos cardiais, vociferava melodicamente com o pêndulo pesado e grosso, qual colosso de Rodes, não à entrado do porto de abrigo e salvação, mas a meão e nas bordas da campânula de chumbo artisticamente fundida por artífice desconhecido, toda a população e animais vários, não exóticos, dispersos pelos campos, caminhos, montes, fragas, quelhos e também em casa ou noutros lugares e em altura de afazeres campestres ou domésticos… fazia nascer uma tal atenção e reverência, diga-se honradamente quase de emoção inumana, querendo-nos inteligente e prudentemente dizer em alto e bom som que algo de importante iria acontecer ou aconteceu ao ponto de despertar toda a atenção dos curiosos e eufóricos cinco sentidos e fazendo estremecer o nosso pequeno e frágil corpo e alma, suspeitando-se quase sempre de algo imprevisto e anormal, lá para os lados de baixo ou de cima, entre as margens extensas e serpenteadas do Torto rio.


A própria água do fértil ribeiro de então e ainda hoje, talvez, que navegava suavemente pelos lados debaixo da antiga residência do senhor abade, da grande e palaciana casa e espigueiro do assento e também do senhor Alfredo.


"Ai, ai, ai, ó senhor Alfredo...

não me bata o pé,

que eu não lhe tenho medo..."


Gritava amiúde o altifalante ora meio rouco ora meio aturdido e ensurdecedor, em tempos merecidamente festivos para o núcleo e cimeiro num grande e alto pau de eucalipto ou oliveira centenária qual palhaço sem asas e adereços, actuando passivamente num circo carecendo de energia e vitalidade.


Passava, dizia, muito mansinho e sedento no Verão e mais espicaçado e furioso nos duros invernos saltitando de temor piedoso como saltita e pinoteia um touro nos verdes prados socalcados e nas fragas irregulares, assemelhando-se a uma vaca louca ou loura toura em tempo caduco de cio assanhado.


Sinto que estas badaladas infantis e distantes e já muito históricas e sonoras, continuam a eclodir pelos campos, montes, vales e serranias, hoje certamente diferentes no conteúdo eco, mas as mesmas nos geográficos e definidos espaços da famigerada e inexplorada céltica aldeia nortenha.


Já não tenho ideia de quem eram os tocadores dos sinos da Igreja de S. Julião de Serafão, nem dos artistas que puxavam as grossas cordas com muito malabarismo, trabalho de esforço gigantesco conforme a circunstância e solenidade!


A todos a minha admiração e gratidão!


Uma vez (trata-se de uma confidência, meus amigos/as), talvez atrevida e indevidamente relatada, subindo clandestinamente as rodadas escadas em caracol em direcção à alta torre e por espaço muito exíguo até ao espaço reservado e frio do habitáculo dos retumbantes sinos, creio que em dia menos solene para a freguesia, ver um bela e cristã criatura zombando as grossas e curtas cordas, fazendo-os emitir de um lado e do outro sons e mais sons, uns mais alegres que tristes ao ponto de verificar no interior da grande campânula as suas entranhas muito magoadas e gastas pelo tempo de tantas e tantas marteladas sem martírio.

Tudo isto me impressionou bastante, até os seus lacrimogénios e doridos olhos bem como as suas muito calejadas mãos, dedos e pés cheios de gretas, o suor da sua rosada face e testa, o pescoço vermelho como um peru, para já não falar doutras partes do encoberto corpo.

E para quê?

Alguém merecia este duradouro esforço?

Quem?


Foram tantos e tantos, os seus nomes hoje, indelicada e injustamente não sei, mas sei que eram pessoas queridas da sua e nossa terra que partiram para outras terras, talvez sem montes e vales, quem adivinhará, talvez uma planície verdejante ou prado de repouso eterno!

Mas, essas badaladas eram emocionalmente impressionantes!

Por vezes, comparavam-se ao toque das trindades. Certamente diferentes daquelas melodias que noticiam os nossos jornais diários e a televisão hodierna.

Conseguiram, sem dúvida, fazer despertar as minhas já provectas memórias interiores tão reprimidas e obscurecidas pelo tempo e por tão profundos e longevos solstícios de imigrante da minha aldeia natal, não porque não tivesse vontade de as fazer nascer e renascer, mas um natural e bom parto, penso, sempre foi tarefa arriscada e de difícil engenho. Uma gestação silenciosa!

Mas, ai... ai... ai… quem larapiamente se atrever a ludibriar ou roubar o sino da minha igreja...

Ter-se-á ou ter-se-ão a ver cruel e ferozmente com a justiça de Fafe e com a multidão de paus e pedras, penedos e gadanhos, forcados e espadas finamente aguçadas, para não dizer de outros artefactos guardados secretamente para situações extremas, cedidas umas bem enfeitadas pelo histórico e pacífico Afonso conquistador e outras mais lihtts pelos seus destemidos cavaleiros e escudeiros apesar dos tempos de festa festejado e no merecido cedido espaço e tempo, prazenteio justo e gozo das suas herdadas cavalariças.

Desta vez, não será até ao Castelo de S. Jorge, no distante, vaidoso, desgovernado e dissimulado Ulissopo, não como nos tempos e medievais idos, mas até ao transtejano Alentejo e praias do algarvio solo.




 Joaquim Afonso




1 comentário:

  1. Que riqueza de vocabulário!!!
    Adorei!!!
    Pois que toquem os sinos da tua, da minha, de todas as aldeias de Portugal!!! 👌

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