Crónicas e Reflexões

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Encontro de gerações/convívio de Serafonenses - Homenagem


Encontro de gerações/convívio de Serafonenses

 Homenagem

Bom dia.

Senhoras e senhores, Caros conterrâneos e Comissão organizadora

Convidado para este encontro/convívio e romagem a este cemitério promovido por um grupo de cidadãos serafonenses, neste dia e mês, tem como principal objectivo prestar uma homenagem de gratidão e reconhecimento aos homens e mulheres que contribuíram generosamente por diversas formas para a causa pública, progresso social, cultural, material, bem estar e prosperidade desta terra.
É pretexto singular para um encontro entre o passado e o presente, o ontem e o hoje, gerações diferentes e para os que aqui repousam em paz - nas tumbas rasas ou outras (mais sumptuosas) - o nosso profundo respeito e os que vivos permanecem recordar seus entes queridos através das seus feitos e memórias deixadas.
Recordar também as instituições e organismos que de alguma forma contribuíram para o bem comum.
No passado - Serafão - Cellafano - Cellafão - Cerafão (nome que remonta às origens ou talvez mesmo antes da fundação da nacionalidade portuguesa), uma terra às escuras, abandonada pelo poder político e homens do poder instituído, com  aglomerados populacionais dispersos, que mal constava nos mapas regionais e no mapa de Portugal, nos anais de um povo, nos roteiros turísticos pelo seu ruralismo primitivo e natural, de caminhos tortuosos e íngremes, um verdadeiro paraíso ecológico, um povo simples, uma comunidade trabalhadora na faina do linho e do azeite, do milho e do centeio - que gritem os moinhos desactivadas pelo progresso contemporâneo e as tecnologias - da batata e dos legumes, do feijão e do vinho, da água repartida e orientada segundo regras antigas, da propriedade mini-fundiária de subsistência, do ferreiro e do sapateiro, do barbeiro e do pedreiro, do carpinteiro e do comerciante, do proprietário, do caseiro e do jornaleiro, do cesteiro e da tecedeira, da costureira e do alfaiate, do pastor e do mineiro, do moleiro, do carteiro/carteira, dos estudantes e jovens, dos cantadores e tocadores populares, dum regime comunitário singular, dos emigrantes e tantos oriundos desta terra que nunca renegaram o seu berço, da guerra indesejada e servil, da religiosidade popular, da alegria das lavradas de Maio e das ceifas e vindimas de Outono – tão poéticas e ao mesmo tempo tão dramáticas – das estações do ano sempre renovadas e viçosas.

O que é hoje, Serafão? Contraste radicalmente com o seu passado arcaico, rural e artesanal, semi - conservador, dividido entre o respeito e o medo, entre o profano e o sagrado,… muito submetido às leis naturais e aos rituais cíclicos da vida, imposições políticas, religiosas e sociais na sua globalidade, não obstante, se distinguirem cidadãos, homens e mulheres de grande mérito, prestígio e bravura tal, que mereceram no passado e continuam a merecer hoje, justamente, a nossa distinção, respeito e perpetuidade.

Mas, falar de Serafão é também falar da carta nunca recebida, do amigo ou parente distante, dos avós, pais que amaram e amam os seus filhos, netos, do moribundo agonizado e sem cuidados paliativos, das promessas não cumpridas e eternamente adiadas, das calçadas cavadas pelos carros de bois chiando nas escarpas dos montes ou nos caminhos e quelho tortuosos, do rio Torto – das casas simples e sombrias onde o conforto era uma utopia, das crianças descalças e tão precocemente condenadas à labuta, dos homens ausentes e emigrados, das mulheres tão prematuramente viúvas, das mães que nos ensinaram a valorizar o sonho, a rectidão, a verdade, a dar valor ao trabalho, a enfrentar os desafios e reconhecer as nossas raízes, a justiça, a religião, a determinação, a escutar e a ter gosto pela vida e os valores da solidariedade, honra e particularmente da liberdade.



É falar da sua igreja, das suas capelas, das festas e romarias e também das escolas, dos professores/professoras que heroicamente e com métodos considerados hoje pela pedagogia moderna menos adequados, mas com muita dedicação e amor à causa, muito contribuíram para a nossa alfabetização e alicerces culturais.

É também falar do tempo em que não havia luz eléctrica, rádio, televisão, telefone, táxi, telemóvel, internet, frigorífico, fogão, micro-ondas, estradas alcatroadas e outros bens que tornam a vida actual e o quotidiano mais fácil, da generosidade dos cidadãos que contribuíram para erigir a cabine eléctrica do Toural (de Serafão), das pessoas que cederam generosamente o terreno para a construção da escola de Vilarelho e hoje paradoxalmente capela e do terreno para a residência paroquial, da candeia ou lampião a petróleo ou a azeite como companhia nas noites de invernia apocalíptica, do telefone único e distante para a maioria das populações, do médico e enfermeira ausentes, da saúde adiada, da ausência de comunicação e transportes, falta de infra -estruturas básicas, de uma povoação quase isolada do seu concelho e distrito e do mundo em constante mutação.

É falar de um passado humilde de paz e harmonia, de inquietude e incertezas, sobressaltos e  irreverências, confrontos semi - pacíficos, incompreensões, tensões e revolta contra a injustiça e a dignidade humana, a opressão e a vassalagem e ao mesmo tempo de um desejo profundo de libertação, de emancipação e progresso.

É, enfim, recordar todos aqueles (homens e mulheres) que nos precederam e deram o seu contributo nas mais diversas actividades para o desenvolvimento social e cultural e progresso democrático.

E, por fim, falar do futuro que já foi ontem e continua a ser hoje “ ad infinitum”.

Beneficiamos actualmente das mínimas infra - estruturas básicas e essenciais, de casas e aposentos mais confortáveis e modernos, pese embora alguma descaracterização paisagística nalgumas zonas, de acessibilidades mais capazes embora insuficientes, de assistência médica e medicamentosa generalizada, de acesso ao ensino e à cultura, ao desporto e ao lazer, mas ainda há muito...muito caminho a percorrer.

Banir discrepâncias e assimetrias sobretudo a nível dos menos beneficiados, zelar pela segurança, instrução e bem-estar das crianças e dos mais velhos e aproximar mais e melhor os cidadãos de causas que promovam o bem comum, a solidariedade, a cidadania e o progressivo desenvolvimento desta terra.

Unir esforços para legar uma herança honrosa às gerações futuras e a todos os serafonenses aqui ou na diáspora...

Queremos, neste campo santo, enfim, recordar e demonstrar o nosso profundo reconhecimento e gratidão:
  •  Aos sacerdotes que paroquiaram a freguesia;´
  • Aos professores/professoras e catequistas que nos ensinaram a ler, escrever e contar e os valores da vida, da religião, do cristianismo;
  • Cruz vermelha;
  • Escuteiros;
  • Associações recreativas e culturais - associação Rio Torto e Centro de convívio e lazer de Agrela e Serafão;
  • Confrarias e comissões de festas;
  • Emigrantes;
  • Estudantes e jovens;


    E a todo o povo trabalhador... que engrandeceu e engrandece esta terra.

E, também aos:
  • Soldados e militares mortos nos conflitos da 1ª e 2ª guerras mundiais;
  • Ex-combatentes da guerra do ultramar (Angola, Guiné e Moçambique).


Mortos em combate em França:
Paulino de Carvalho – natural da freguesia de Serafão, era filho de António Luiz de Carvalho;
João Moreira – natural da freguesia de Serafão, era casado com Júlia Fernandes;
Mortos em combate em África:
Manuel da Silva – natural da freguesia de Serafão, era filho de Joaquim da Costa;
João Martins – natural da freguesia de Serafão, era filho de Casimiro Martins e de Maria Joaquina Fernandes,


“Bons soldados da nossa terra, disciplinados, bravos, patriotas, que morresteis na França, na África e na Alemanha!
Que exemplo para nós todos!
Que orgulho de raça!
Que glória imperecível!
A todos vós, pois, Salvé!
E aos vossos, se dor tiverem no coração, que ela se transforme em orgulho” – O Desforço – 1921


E, termino, citando a inscrição/frase que se encontra à entrada da capela dos ossos, em Évora:     


" Nós que aqui estamos, pelos vossos esperamos"



 Joaquim Afonso




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