Crónicas e Reflexões

sexta-feira, 11 de abril de 2014

IIIª Sinfonia - O RIO TORTO




 O RIO TORTO (IIIª sinfonia)
A Arca

Assemelhava-se a uma arca perdida e abandonada, mas bem arquitectada e abonada nas dimensões geométricas naturais, logo a seguir à descida do generoso engenho de azeite, do lado esquerdo de quem sobe para o cachão e após a minúscula ponte de pedra, num local e percurso pouco acidentado do rio.

No Outono e Inverno e (talvez, hoje…) mantinha sempre uma portinhola rectangular de pedra aberta e escancarada ao centro, para escoamento mais fácil e rápido das águas pluviais e correntes mais fortes, em tempo de copiosas e abundantes chuvadas.

No Verão, os proprietários e usufrutuários das águas acumuladas, com diligente previdência e de acordo com todos os interessados, construíam um tapume em madeira nova com um buraco no fundo e no meio, colocando-a artesanal, artística e engendrosamente na portinhola e finalmente cimentando as arestas e friestas com pedra, areia e lama.

Depois deste feito, os proprietários das horas das águas passavam a tapar minuciosamente o olho do buraco ou como se dizia na altura, o olheiro da poça com terra e torrões da fraga próxima, creio que na altura, terreno baldio.

E, era só esperar pacientemente que a alegre e generosa natureza e as águas normais do rio, enchessem a arca em altura, largura, profundidade e comprimento.
Depois de horas e horas a encher, semiencher ou quase a transbordar era a altura propícia de a inaugurar, com pompa e alguma circunstância, sem tesoura nem fita. 

 E, foi assim, que num dia naquelas passadas águas da arca e durante dias e dias, pé ante pé, descalços minguantemente, nus como despelenizadas evas modernas e adões peruanos à procura de ervas e uvas aromáticas escondidas algures, nos lançáramos destemidamente às águas frias e quase geladas da longa poça, pois no preciso local algumas árvores atrevidas e esqueléticas impediam a entrado do sol estival.

Não era uma piscina fluvial, um tanque moderno, uma lagoa curta ou comprida, um oásis de miragens à procura de errantes camelos selvagens!

Foi precisamente nessa arca improvisada e pouco moderna, por vezes encontrando alguns répteis dóceis, roedores famintos e libelinhas tontas que iniciei uma nova aventura e oportunidade – aprender a nadar…!

E, ainda dizem ou disseram que “as pinturas não sabem nadar”. Marotos!

 Necessitei de muito e muito treino e dada a temperatura constante da água, os pedregulhos, areia dispersa e outros materiais dispersos, massajando asperamente os já massacrados pés, pernas, mãos, enfim, todo o virginal corpo!.

Fora um intenso e persistente treino quer individual, e colectivo, agradável nos tempos e horas livres, mas que também teve os seus dissabores e amarguras.

A nossa simples e pouca roupa depois de pudicamente despidos ficara espalhada na relva, ou em cima de rochas, ou pendurada em canos e galhos de árvores, bem como, o rude calçado para assustar a atrevida passarada e curiosa.

Várias vezes, depois dos agradáveis, acidentados e sazonais banhos, dirigia-me ao local onde tinha escondido ou deixado a roupa e … surpresa das surpresas … por mais que a procurasse não a encontrava no sítio, tendo sido novamente escondida ou roubada por brincadeira por um ou mais espertinhos ou brincalhões à espera de violenta e caricata reacção.

E, então, azar dos azares, como as parras muitas vezes careciam, pois o vento lembrava-se de amiúde soprar ou aquelas abençoadas árvores se encontravam a adivinhar a menopausa, o remédio ou a solução para o problema criado era aventurarmo-nos nus a caminho das nossas casas, sujeitos a encontrar aqui e ali um ou outro transeunte atento, rindo-se da nossa inocente nudez e brincadeira.
Várias vezes isto aconteceu.

A fuga do rio até casa era uma aventura arriscada, pois o medo de sermos interceptados pelos pais ou vizinhos era aterrador para já não falar de um que outro atrevido animal, sobretudo cães e gatos que de olhos bem abertos e dentes muito afiados para nós, quase a querer comer-nos as partes mais frágeis do corpo e a farejar desalmadamente o odor dos sabões utilizados em outras partes sensíveis.

Consta-se, por lá, que numa tarde soalheira de Verão, um rapaz divertido e pouco atlético numa das fugas a banhos para os lados do rio e na referida arca, vendo-se despido e sem roupa próxima, perdida algures no meio dos fenos, silvas e ervas daninhas foi obrigado a mostrar a sua nudez virginal por entre árvores, (diz-se que a caminho de casa foi incomodado por uma matilha e gatos dóceis, mas atrevidos e curiosos que o surpreenderam, talvez estimulados pelos odores carnais e gestos violentos do aventureiro, aventurando-se a examinar o que de entre as pernas pendia, ao ponto de um quadrúpede arraçado mais destemido se aproximar dos cujos, farejando-os maliciosamente e provocando-lhe reacções estranhas na sua nudez pálida e face ruborizada).

Querendo pedir socorro e aos gritos à senhora dos aflitos e ao S. Bentinho da Porta Aberta que nesse momento crucial e urgente se encontrava com a porta da capela fechada e a contemplar os outros rios lá em baixo, com mais caudal e turismo, pois era precisamente a hora da merecida cesta e do seu lazer para já não falar, também dos insistentes rogos a todos os santinhos dispersos pela igreja de S. Julião de Serafão e capelas em redor, dizia, só conseguia gesticular para os outros cães que passivamente assistiam a tamanho desacato e brincadeira…

A situação tornou-se muito grave quando de repente as suas partes externas foram invadidas e surpreendidas pelos intrusos curiosos provocando-lhe imensas cocegas e comichões. Alguns lavradores, mas sobretudo senhoras idosas que se encontravam nos campos vizinhos do caminho a amanhar a terra, apanhar favas e cebolas e sobretudo a apalpar tomates, alertadas pelos surpreendentes gritos, entraram em pânico, ao ponto de se gerar inesperadamente tal confusão que reuniu pavorosamente de imediato toda a gente da aldeia. Tentaram urgentemente telefonar para as autoridades, mas não havia telefone, gritaram pelos bombeiros, mas já não havia água nem fogo, ergueram os olhos para o céu, mas não havia estrelas, imploraram a senhora do Sameiro e o bom jesus, mas o nevoeiro intenso e cerrado impediu tal visão e até chegaram aos limites de invocar santa bárbara...

Sem eco dos seus impressionantes lamentos, aquela simples gente continuou a lide iniciada, tendo por única companhia a companhia da sua gente…
Mas, teve muita sorte, dizem, ficarem por aí, pois mais acima seria ainda mais perigoso e as consequências seriam terríveis para a freguesia!

Naturalmente pensaram que para tão pouco pasto não valia tão arriscada proeza. E o rapaz lá chegou lavado, são e salvo a casa e depois de bem examinado pelos progenitores, chegaram à conclusão que o menino estava bem lavado e bem cheiroso e nada lhe faltava no corpo, excepto, a roupa que se encontrava em parte incerta.

Soube-se que foi severamente admoestado pelas fracas figuras que fez, pelo atentado à dita moral pública, mas algumas vozes e diga-se das mais idosas do lugar diziam baixinho para si e os seus botões:
“perdoai - lhes senhor, pois não sabem o que fazem!”, prometendo a pés juntos e com muito respeito e educação, repetir a proeza nos próximos tempos… Ai! Ai!...Ó…

Mais tarde, vim a saber de fonte fidedigna que as consequências da aventura foram minimizadas, pois dizem que o aventureiro não foi muito afectado nas partes mais baixas, íntimas e puras, que contribuiu como era seu dever e direito para a propagação da sua espécie e enriquecimento da freguesia!

O povo um pouco céptico e desconfiado desta história e porque não encontrara outras explicações, disse que tudo isto se devia às benditas águas do rio Torto…

Talvez…!

Ó, ai, ó linda!


Joaquim Afonso

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