O RIO TORTO (IIIª
sinfonia)
A Arca
Assemelhava-se a uma arca perdida e abandonada, mas bem arquitectada e
abonada nas dimensões geométricas naturais, logo a seguir à descida do generoso
engenho de azeite, do lado esquerdo de quem sobe para o cachão e após a
minúscula ponte de pedra, num local e percurso pouco acidentado do rio.
No Outono e Inverno e (talvez, hoje…) mantinha sempre uma portinhola
rectangular de pedra aberta e escancarada ao centro, para escoamento mais fácil
e rápido das águas pluviais e correntes mais fortes, em tempo de copiosas e
abundantes chuvadas.
No Verão, os proprietários e usufrutuários das águas acumuladas, com
diligente previdência e de acordo com todos os interessados, construíam um
tapume em madeira nova com um buraco no fundo e no meio, colocando-a artesanal,
artística e engendrosamente na portinhola e finalmente cimentando as arestas e
friestas com pedra, areia e lama.
Depois deste feito, os proprietários das horas das águas passavam a
tapar minuciosamente o olho do buraco ou como se dizia na altura, o olheiro da
poça com terra e torrões da fraga próxima, creio que na altura, terreno baldio.
E, era só esperar pacientemente que a alegre e generosa natureza e as
águas normais do rio, enchessem a arca em altura, largura, profundidade e
comprimento.
Depois de horas e horas a encher, semiencher ou quase a transbordar era
a altura propícia de a inaugurar, com pompa e alguma circunstância, sem tesoura
nem fita.
E, foi assim, que num dia naquelas passadas águas da arca e durante dias
e dias, pé ante pé, descalços minguantemente, nus como despelenizadas evas
modernas e adões peruanos à procura de ervas e uvas aromáticas escondidas
algures, nos lançáramos destemidamente às águas frias e quase geladas da longa
poça, pois no preciso local algumas árvores atrevidas e esqueléticas impediam a
entrado do sol estival.
Não era uma piscina fluvial, um tanque moderno, uma lagoa curta ou
comprida, um oásis de miragens à procura de errantes camelos selvagens!
Foi precisamente nessa arca improvisada e pouco moderna, por vezes
encontrando alguns répteis dóceis, roedores famintos e libelinhas tontas que
iniciei uma nova aventura e oportunidade – aprender a nadar…!
E, ainda dizem ou disseram que “as pinturas não sabem nadar”. Marotos!
Necessitei de muito e muito
treino e dada a temperatura constante da água, os pedregulhos, areia dispersa e
outros materiais dispersos, massajando asperamente os já massacrados pés,
pernas, mãos, enfim, todo o virginal corpo!.
Fora um intenso e persistente treino quer individual, e colectivo,
agradável nos tempos e horas livres, mas que também teve os seus dissabores e
amarguras.
A nossa simples e pouca roupa depois de pudicamente despidos ficara espalhada
na relva, ou em cima de rochas, ou pendurada em canos e galhos de árvores, bem
como, o rude calçado para assustar a atrevida passarada e curiosa.
Várias vezes, depois dos agradáveis, acidentados e sazonais banhos,
dirigia-me ao local onde tinha escondido ou deixado a roupa e … surpresa das
surpresas … por mais que a procurasse não a encontrava no sítio, tendo sido
novamente escondida ou roubada por brincadeira por um ou mais espertinhos ou
brincalhões à espera de violenta e caricata reacção.
E, então, azar dos azares, como as parras muitas vezes careciam, pois o
vento lembrava-se de amiúde soprar ou aquelas abençoadas árvores se encontravam
a adivinhar a menopausa, o remédio ou a solução para o problema criado era
aventurarmo-nos nus a caminho das nossas casas, sujeitos a encontrar aqui e ali
um ou outro transeunte atento, rindo-se da nossa inocente nudez e brincadeira.
Várias vezes isto aconteceu.
A fuga do rio até casa era uma aventura arriscada, pois o medo de sermos
interceptados pelos pais ou vizinhos era aterrador para já não falar de um que
outro atrevido animal, sobretudo cães e gatos que de olhos bem abertos e dentes
muito afiados para nós, quase a querer comer-nos as partes mais frágeis do
corpo e a farejar desalmadamente o odor dos sabões utilizados em outras partes
sensíveis.
Consta-se, por lá, que numa tarde soalheira de Verão, um rapaz divertido
e pouco atlético numa das fugas a banhos para os lados do rio e na referida
arca, vendo-se despido e sem roupa próxima, perdida algures no meio dos fenos,
silvas e ervas daninhas foi obrigado a mostrar a sua nudez virginal por entre
árvores, (diz-se que a caminho de casa foi incomodado por uma matilha e gatos
dóceis, mas atrevidos e curiosos que o surpreenderam, talvez estimulados pelos
odores carnais e gestos violentos do aventureiro, aventurando-se a examinar o
que de entre as pernas pendia, ao ponto de um quadrúpede arraçado mais
destemido se aproximar dos cujos, farejando-os maliciosamente e provocando-lhe
reacções estranhas na sua nudez pálida e face ruborizada).
Querendo pedir socorro e aos gritos à senhora dos aflitos e ao S.
Bentinho da Porta Aberta que nesse momento crucial e urgente se encontrava com
a porta da capela fechada e a contemplar os outros rios lá em baixo, com mais
caudal e turismo, pois era precisamente a hora da merecida cesta e do seu lazer
para já não falar, também dos insistentes rogos a todos os santinhos dispersos
pela igreja de S. Julião de Serafão e capelas em redor, dizia, só conseguia
gesticular para os outros cães que passivamente assistiam a tamanho desacato e
brincadeira…
A situação tornou-se muito grave quando de repente as suas partes
externas foram invadidas e surpreendidas pelos intrusos curiosos provocando-lhe
imensas cocegas e comichões. Alguns lavradores, mas sobretudo senhoras idosas
que se encontravam nos campos vizinhos do caminho a amanhar a terra, apanhar
favas e cebolas e sobretudo a apalpar tomates, alertadas pelos surpreendentes
gritos, entraram em pânico, ao ponto de se gerar inesperadamente tal confusão
que reuniu pavorosamente de imediato toda a gente da aldeia. Tentaram
urgentemente telefonar para as autoridades, mas não havia telefone, gritaram
pelos bombeiros, mas já não havia água nem fogo, ergueram os olhos para o céu,
mas não havia estrelas, imploraram a senhora do Sameiro e o bom jesus, mas o
nevoeiro intenso e cerrado impediu tal visão e até chegaram aos limites de
invocar santa bárbara...
Sem eco dos seus impressionantes lamentos, aquela simples gente
continuou a lide iniciada, tendo por única companhia a companhia da sua gente…
Mas, teve muita sorte, dizem, ficarem por aí, pois mais acima seria
ainda mais perigoso e as consequências seriam terríveis para a freguesia!
Naturalmente pensaram que para tão pouco pasto não valia tão arriscada
proeza. E o rapaz lá chegou lavado, são e salvo a casa e depois de bem
examinado pelos progenitores, chegaram à conclusão que o menino estava bem
lavado e bem cheiroso e nada lhe faltava no corpo, excepto, a roupa que se
encontrava em parte incerta.
Soube-se que foi severamente admoestado pelas fracas figuras que fez,
pelo atentado à dita moral pública, mas algumas vozes e diga-se das mais idosas
do lugar diziam baixinho para si e os seus botões:
“perdoai - lhes senhor, pois não sabem o
que fazem!”, prometendo a pés juntos e com
muito respeito e educação, repetir a proeza nos próximos tempos… Ai! Ai!...Ó…
Mais tarde, vim a saber de fonte fidedigna que as consequências da
aventura foram minimizadas, pois dizem que o aventureiro não foi muito afectado
nas partes mais baixas, íntimas e puras, que contribuiu como era seu dever e
direito para a propagação da sua espécie e enriquecimento da freguesia!
O povo um pouco céptico e desconfiado desta história e porque não
encontrara outras explicações, disse que tudo isto se devia às benditas águas do rio Torto…
Talvez…!
Ó, ai, ó linda!
Joaquim Afonso
Muito bom, muito descritivo, como sempre. Adoro os pormenores!!!
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